PORTO AMÉLIA «» PEMBA  - POESIA


Moçambique, África, Pemba, a "magnífica água", a grandeza e trágica compostura de um continente a que sempre se há-de referir, captaram-na para sempre...


 

Já alguma vez arrancou uma planta útil da terra?  Não o faça

Eu sei o que sente uma planta arrancada sem culpa do seu chão.

(do Livro Amaranto)

 

Dedico esta página a minha paciente professora de inglês (Glória de Sant'Anna) quando seu aluno do colégio de São Paulo e da Escola Comercial Jerônimo Romero em Porto Amélia, hoje Pemba, na década de 60.


:: Brasil, 2 de Junho de 2009 - O tempo, dilapida implacável, inclemente nossas referências... Fica a saudade para alimentar o quotidiano difícil do horizonte do hoje.
Do "ForEver PEMBA" e do "São Paulo o Colégio" transcrevo:

GLÓRIA DE SANT'ANNA - A eterna poetisa do mar azul de Pemba.


(
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Partiu esta madrugada nossa Querida Professora, Amiga e Poetisa, Glória de Sant'Anna.
A notícia veio até mim por este pequeno e simples texto:
 
"... É com profunda dor, que te venho anunciar o falecimento da nossa Mãe.
Morreu às 4 horas da madrugada do dia de hoje..."
 
Não é fácil falar ou comentar quando o coração está apertado, amargurado com mais esta passagem da vida que envolve e atinge um ser humano de valor sentimental imensurável para muitos de nós que aprendemos a caminhar na vida pela força e ensinamentos recebidos de suas delicadas mãos sempre dadas às nossas, desde os tempos da infância.
 
Só consigo dizer que jamais esquecerei seu olhar terno, suave, sua voz tranquila, meiga mas firme e de palavras inteligentes, doces, sempre doces, repletas de poesia e sabedoria...
 
Jamais deixarei de a considerar minha Querida Professora, quase uma segunda Mãe...
 
Jamais deixarei de a considerar a minha Querida e Eterna Poetisa do Mar Azul de Pemba...
 
E é com lágrimas nos olhos, com imensa tristeza, com uma tremenda saudade que não tem fim, que, aqui de longe, a revejo no meu imaginário no meu último abraço, no meu último adeus terreno, ciente que a reencontrarei sempre em meus sonhos e na poesia de todos os entardeceres que aprendi a descobrir com a beleza de seus versos e com a generosidade que emanava de seu coração de poetisa, professora e Mãe.
- J. L. Gabão, 02 de Junho de 2009.
 
Em tempo: Que a beleza e força espiritual de D. Glória (como sempre e carinhosamente por nós era chamada), que são eternas, nos inspire a todos, seus Amigos, assim como a seus Filhos e Familiares, a superar a saudade que fica!
 
Quando o n'pure chega

É madrugada e o n'pure voltou e canta

para o vermelho-laranja do horizonte

e o silêncio em volta dos telhados

é longo e doce

Uma linha de fumo branco sobe

da fogueira do guarda envolto na capulana escura

e a folhagem parada freme de súbito

ao grito do n'pure

Em redor dos troncos tombaram

as primeiras-tímidas flores da acácia rubra

durante a noite (penso)

ou soltas pelas asas leves do n'pure

- Glória de Sant'Anna - "Amaranto".

  • Da Literatura: GLÓRIA DE SANT'ANNA 1925-2009 - Aqui!
  • 7 registos de Glória de Sant'Anna (Fundação Calouste Gulbenkian) - Aqui!
  • Batuque ao longe - Aqui!
  • Egoísmo - Aqui!
  • Glória de Sant'Anna - Aqui!
  • Glória de Sant'Anna - uma mulher sensível - Aqui!

glória de Sant'Anna - o silêncio intimo das coisas

No Moçambique que precedeu a independência, a qual teve lugar em 25 de Junho de 1975, muita coisa aconteceu, como não é sabido de toda a gente. Na realidade, não é sabido de quase ninguém, exceto de uns poucos ( e não todos) que lá viveram.

Muito se tem escrito, sobretudo no pelouro em que impera o "discurso político", acerca do que foi ou não foi o chamado período colonial português. Seja dito de passagem que mais se tem falado do que acertado. É com lindos sentimentos que se faz má literatura, disse-o um dia Gide, irritando Claudel, e é também com angélicas intenções que se trai,  frequentemente, os mandatos da história. Não deixa sobretudo de ser curiosa a fácil boa consciência de quem, no chamado Portugal continental, bem mais se aproveitou (e prosperou) com a exploração colonial do que tantos que pelo ultramar tristemente se alienaram, pobre e honradamente viveram e, para o fim, alucinadamente se desintegraram. De gente séria, pobre e perplexa ( e não só da outra), está a história de Moçambique também cheia, como não é do conhecimento confortável de algumas consciências bastante poluídas, que depois facilmente se reconciliaram consigo próprias, por vias mais ou menos expeditas... ... ... ... ...Com a publicação, em 1961, em Moçambique, do livro de poemas "Livro de Água", laureado com o premio Camilo Pessanha, confirmava-se, para alguns, e revelava-se, para muitos outros, um dos nomes mais importantes da poesia portuguesa, em Moçambique, e um dos poetas mais notáveis, em língua portuguesa, dos últimos vinte e cinco anos: Glória de Sant'Anna. Para o leitor da antiga "metrópole", um livro em língua portuguesa, publicado em Moçambique, Angola ou também em Cabo Verde, era, por assim dizer,  um livro "perdido". Os nomes de Rui Knopfli, Sebastião Alba, Glória de Sant'Anna, Lourenço de Carvalho e, até certo ponto, mesmo o de João Pedro Grabato Dias, entre outros, nada ou quase nada significavam para o leitor confinado, como diria Jorge de Sena, entre o Chiado e a Rua Ferreira Borges.... ... ... ...Não se sabia muito bem quem eram, o que faziam, o que pensavam... E o fato de estarem a viver "lá" era já, em principio, um motivo de apreensão. ... ... ... Glória de Sant'Anna foi, para Moçambique, um produto de importação.   Nascida em Lisboa, em 26 de maio de 1925, concluiu o curso complementar de Letras no Colégio de Odivelas, casou em 1949 e, dois anos depois, partiu para aquela colônia portuguesa onde fixou residência, em Nampula. Em 1953 mudou-se, com sua família, para Porto Amélia (hoje Pemba), onde permaneceu, frente à vasta baía, quase até ao regresso definitivo a Portugal, em Dezembro de 1974 ( os dois últimos anos passou-os a poetisa em Vila Pery).... ... ...O "seu chão" fora Pemba, o mar, a água, o "vento de prata/manso, manso".  O "mar calmo e estranho" tornara-se a presença fraterna, terapêutica, ameaçadora, tranquila, lisa, ominosa, às vezes trágica-densa, sempre vigilante. E os momentos passados à sua beira exprimiam a dignidade de momentos "translúcidos e antigos".   Arrancada deste chão onde se encontrava "inteira", o exílio em que, ironicamente, se traduziu o regresso à pátria teve consequências traumáticas. ... ... Isto é, durante cerca de quatro anos, nada produziu. 

Em Portugal, de Norte para Sul e do Sul para Norte, entre Ovar e o Algarve, tentando reencontrar o rumo que não havia   (o mar, que é bom "porque é concreto", ficara para trás), Glória de Sant'Anna foi sobrevivendo ao rés de um desespero nem sempre inteiramente dominado. ... ... ...Durante vários anos arredada do "seu" mar, que era em Pemba, e da "sua" escrita, que dele se alimentara, Glória de Sant'Anna fixou-se finalmente em Ovar: - "Atualmente, na minha condição de aposentada, reparto o tempo pela casa e pela família e ajudo o meu marido num gabinete de arquitectura e obras, que abriu perto daqui".

A obra de Glória de Sant'Anna, na sua concentração e densidade, na sua liquidez secreta e cheia de pudor, na sua misteriosa claridade, na sua "mortal" e dominada angústia, consta essencialmente  de sete livros publicados, seis de poesia ( Distância, 1951; Música Ausente, 1954; Livro de Água, 1961; Poemas do Tempo Agreste, 1964; Um Denso Azul Silêncio, 1965 e Desde que o Mundo e 32 poemas de Intervalo, 1972) e um de crônicas (...Do Tempo Inútil, 1975). Além destes o volume agora editado (1984) inclui 4 livros inéditos: A Escuna Angra (1966-68); Cancioneiro Incompleto (temas de guerra em Moçambique, 1961-71); Gritoacanto (1970-74 e cantares de Interpretação (1968-73. O resto é trabalho disperso por revistas e jornais: Diário Popular, Guardian (Lourenço Marques), Itinerário (L. M.) Diário de Moçambique (Beira) Noticias (L.M.), Tribuna (L.M.), Sul (Brasil) e Caliban (L.M.).

Glória de Sant'Anna tornou-se quase desde o seu "aparecimento" discreto, uma das vozes mais geralmente reverenciadas, no panorama literário de Moçambique. Mas aquilo a que poderíamos, sem exagero, chamar a sua "glória", nada teve de ruidoso. A autora do Livro de Água foi sempre um personagem de um pudor e "retiro" exemplares, na feira intelectual que, em Moçambique, como em todo o lado, tinha os seus profissionais da promoção e da acrobacia. "Serei tão secreta/como o tecido da água" afirmará ela, num dos seus poemas. De fato, toda a sua obra, de um extremo ao outro, é um alongado programa de homenagem à nobreza do "silêncio" e do "falar pouco"... ... ...

... ... ...Dizia um grande escritor deste século que sofria por causa dos homens a quem se não dá o lugar que merecem. E acrescentava haver nas letras francesas de hoje alguns exemplos dessa injustiça, por omissão. Há nas letras portuguesas de hoje  também alguns exemplos disso. Glória de Sant'Anna é um deles, mas não é caso único. Entre os escritores que a ressaca da descolonização trouxe até estas paragens, há uma boa meia dúzia a pedir que os publiquem, os estudem e os divulguem. Constitui para mim uma honra e um privilégio esta tentativa de procurar a autora dos Poemas do Tempo Agreste "completa dentro desta pura água", para a dar a conhecer a um público distraído, mas eventualmente capaz de lhe reconhecer a estatura. Honra idêntica me daria poder fazê-lo por outros. O silêncio que sobre eles pesa, um silêncio morto, não é por certo o fecundo e "denso azul silêncio" que irriga e impregna o claro e enigmático discurso poético de Glória de Sant'Anna.

EUGÉNIO LISBOA - Londres, Dezembro 1983/Janeiro 1984 - transcrito do Livro  Amaranto

 

 

glória de sant'anna : uma poética de mar e silêncio !

 
 

Por CARMEN LUCIA TINDO RIBEIRO SECCO - Doutora em Letras Vernáculas e Profª. de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ.

 

O silêncio funda um outro discurso, que não o comum; entretanto , é linguagem de grande teor significativo ( STEINER, 1988, p. 73 ).
Mar, silêncio e solidão atravessam a obra poética de Glória de SantAnna, cuja linguagem flui numa liquidez profunda, articulada por uma semântica aquática e abissal, que busca apreender os mistérios da alma humana.
Por ter nascido em Lisboa e por ser sua poesia de cunho predominantemente universal, versando sobre temas existenciais, a poesia de Glória de SantAnna, durante algum tempo, não foi considerada como pertencente ao patrimônio literário moçambicano, embora grande parte de seus poemas tenha sido produzida durante os vinte e três anos vividos por ela em Moçambique. Consideramos esse critério bastante discutível, pois apenas leva em consideração a pátria de nascimento da autora, ignorando os pactos afetivos de identificação tecidos durante sua longa vivência em terras africanas.
Em 1951, recém-casada, Glória mudou-se para Nampula, cidade moçambicana onde viveu até 1953, ocasião em que se transferiu para Porto Amélia, hoje Pemba, outra cidade do litoral moçambicano.
Seus primeiros livros foram publicados nessa época: Distância (1951) e Música Ausente (1954). Nessas obras, é clara a desterritorialização do sujeito poético, cuja face, sobre o azul vogando (SANT'ANNA, 1988, p.47 ) se revela perdida, refletindo a imagem da própria identidade fraturada que não se reconhecia ainda nas paisagens africanas. Com o coração inteiro/ no fundo do oceano ( op. cit., p.35 ), o eu-poético tem consciência de seu naufrágio interior. Mergulha, então, nas marítimas águas do exílio, e, através de uma linguagem poética reflexiva, procura alguns pontos de ancoragem com as fronteiras diluídas da pátria distante.
Nos dois primeiros livros de Glória, domina uma semântica de vaguidão. As reminiscências da voz lírica se encontram esmaecidas, sem nenhum referencial, a não ser o oceano de prata que se esvai em longínquos horizontes e se configura, ainda, como um território vazio de memórias, conforme denunciam os versos do poema Música Ausente: Na minha lembrança batem águas de vidro / de um mar sem sentido.( op. cit., p.53 )
Nas composições poéticas dessa fase, amargura, degredo e solidão aprisionam o sujeito lírico, que, sem uma fisionomia definida, se fecha em sua interioridade, à procura de elos emotivos capazes de equilibrarem sua subjetividade cindida entre duas pátrias.
É, pela contemplação do mar de Pemba e pelo exercício da poesia, que consegue alento para ultrapassar o desenraizamento provocado pela saída da terra natal para viver em terras alheias.
À medida que se contempla existencialmente no espelho das marítimas águas, o sujeito poético vai se encontrando e , naturalmente, começa a incluir em seus versos novas paisagens e pessoas. Do âmago das palavras emanam, então, emoções fraternas em relação ao povo moçambicano : Que importa seres meu irmão noutro país? (op.cit., p.56) indaga-se o sujeito lírico, com o coração já se abrindo aos novos horizontes.
Cartografias geográficas, culturais e humanas de Moçambique vão, aos poucos, integrando o imaginário literário da poesia de Glória de Sant'Anna, que, lentamente, passa a captar os ritmos e batuques africanos ( Poema Batuque,op. cit. 63 ), como também as danças das negras à beira-mar:

Negrinha faceira,
dentro da água cálida,
quem olhará
tua graça?

Ou quem verá teu riso
esparso
entre uma onda translúcida
e um sargaço?

(...)
Os teus pés estão sobre os búzios claros
e vazios,
e há música e sol
em teus ouvidos.

Mas quem passa, deixando pegadas na areia,
não olha para ti, negrinha faceira.


( SANT'ANNA, 1988, p.62 )

Afirmando-se por um ethos existencial e humano, a poética de Glória, com imensa sensibilidade e delicadeza de sentimentos, também critica os preconceitos raciais presentes em Moçambique; só que o faz de forma suave, velada e sutil.
Contemporâneos da chamada poesia da moçambicanidade, seus poemas de Música Ausente ( 1954 ) e do Livro de Água (publicado em 1961, mas com poemas escritos na década de 50 ), embora não se utilizem do estilo veemente com que, por exemplo, Noêmia de Souza e José Craveirinha celebraram, nos anos 50, os valores autenticamente moçambicanos, também cantam as belezas africanas :


( Do fundo do tempo a negra se curva
sobre a inquieta água
e sobre seu cesto redondo
de palha entrançada.
Por dentro da tarde a negra se curva
no horizonte fechado,
o seu gesto é ancestral
e cansado).

( SANT'ANNA, 1988, p. 63 )


Laureada com o prêmio Camilo Pessanha, em 1961, por seu Livro de Água, Glória de Sant'Anna tornou-se reconhecida literariamente.
Continuou a escrever nos anos 60 e 70, e sua obra se manteve fiel à linha existencial por que optou desde o início de sua trajetória poética. Embora acompanhasse as mudanças sociais por que passava a sociedade moçambicana, a poesia de Glória, nos anos de guerra a que ela chamou de 'tempos agrestes', não enveredou pelo ethos militante e revolucionário que dominou o panorama literário de Moçambique nesse período. Apesar de muitos de seus poemas terem denunciado os malefícios dessa época de lutas e violências, sua poética fez a opção pelo silêncio e pela metáfora, alinhando-se, por isso, ao lado dos poetas do Grupo Caliban, como Rui Knopfli, Sebastião Alba, entre outros, que, para driblarem a censura e repressão, enveredaram por caminhos poéticos universalistas e existenciais, sem, contudo, deixarem de problematizar as questões sociais.
O trabalho poético é às vezes acusado de ignorar ou suspender a praxis. Na verdade, é uma suspensão momentânea e, bem pesadas as coisas, uma suspensão aparente. Projetando na consciência do leitor imagens do mundo e do homem muito mais vivas e reais do que as forjadas pelas ideologias, o poema acende o desejo de uma outra existência, mais livre e mais bela (...), pela qual vale a pena lutar . ( BOSI, 1983, p.192 )

Em tempos desumanos, de brutalidade e jugo totalitário, há poetas que ultrapassam os ângulos limitados de políticas panfletárias, não tomando partido direto e radical, embora criticando as arbitrariedades do poder. É o caso de Glória de Sant'Anna e dos poetas de Caliban, que captaram a angústia das possíveis e cruéis injustiças, denunciando o sem sentido da força e ressaltando a importância do existir humano. O silêncio, nos versos desses poetas, fala, expressa a recusa do apenas circunstancial e político. Penetra os espaços abissais da própria poesia, buscando a expressão do puro, do indelével, dos sentimentos mais recônditos da alma humana universalmente concebida. Essa poesia foi, nos tempos de combate, considerada por alguns mais sectários como reacionária. Hoje, entretanto, não mais é vista assim, pois muitos críticos literários contemporâneos sabem que a saudade de tempos que parecem mais humanos nunca é reacionária.

(...) Reacionária é a justificação do mal em qualquer tempo.
Reacionário é o olhar cúmplice da opressão. Mas o que move os sentimentos e aquece o gesto ritual é, sempre, um valor: a comunhão com a natureza, com os homens, (...) com a totalidade. ( BOSI, 1983, p.153 )

Os poetas de Caliban denunciaram as desumanidades da guerra e mostraram a necessidade de recuperar valores existenciais mais profundos. Glória de Sant'Anna, em muitos de seus poemas escritos de 1964-1974, criticou o sem sentido da guerra que, para ela, igualou os soldados revolucionários e os cipaios ( SANT'ANNA, Amaranto, p.164, p. 176 ). Comoveu-se com as mortes, chorou com a chuva sobre o rosto do cadáver do negrinho estirado no chão ( op. cit. p. 99 e p.100), acumpliciando-se com as mães negras que perderam seus filhos nas lutas. E, como mulher, se identificou às negras, celebrando o sentimento universal da maternidade:

Olho-te : és negra.
Olhas-me: sou branca.
Mas sorrimos as duas
na tarde que se adeanta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana.

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes,
E tão perto da morte...

( SANT'ANNA, 1988, p. 119 )

Nos poemas onde Glória denuncia a urgência de sangue exigida pela guerra, o mar se faz ausente. A voz lírica se tece da angústia de um silêncio diferente, porque forjado por medos e atrocidades. Um silêncio de ciprestes, esquifes e espadas cegas. Um silêncio de anulação da arte e da vida.
No poema Sexto do livro Cancioneiro Incompleto ( temas da guerra em Moçambique , 1961 - 1971 ), de Glória de Sant'Anna, o sujeito poético condena a violência que destruiu os macondes, cujas esculturas celebra :

(...)
( cada figura crescia de suas mãos negras
como se brotasse da sua própria fina pele
solta para a claridade e portadora
de igual agreste impulso
e em seu rosto
e em suas pupilas alagadas
era o mesmo secreto tempo de amar )

Hoje o pesado e oculto pau preto
jaz dentro da ausência
pleno de irreconhecíveis figuras
que perpassam iguais às da nossa memória(...)
( SANT'ANNA, 1988, p. 167-168 )

Por entre sons de canhões e agrestes perplexidades diante da morte de pessoas inocentes, a poesia de Glória capta também a suavidade do mar , o canto dos negros e os tã-tãs dos tambores moçambicanos ( Op. cit., p.201). Por entre os silêncios de lucidez crítica, seus versos assumem a consciência do fazer estético e, em meio às lacunas da denúncia explícita da opressão, teoriza sobre sua própria arte poética:

Um poema é sempre
uma qualquer angústia que transborda.

( E eu posso cantá-lo de amor
posso cantá-lo de ódio
posso cantá-lo de roda...)

Um poema é sempre
como um rebento novo que se desdobra.

( E eu posso cantá-lo ao sol
posso cantá-lo de água
posso cantá-lo de sombra...)

Um poema é sempre
como uma lágrima que se solta.
( E eu posso cantá-lo como quiser:
há sempre uma palavra que me esconda...)


( SANT'ANNA, 1988, p. 97 )

Metalinguagem, sensibilidade e silêncio levam a voz lírica a profundas reflexões sobre a sua textualidade poética que, de grito a canto, se reconhece mar, vento, som, melodia. O oceano traz as correntes submersas da memória. Mudanças atmosféricas marcam o ritmo introspectivo das lembranças e das catarses históricas.
Alterações cromáticas, luminosas e sonoras trazem o vento para dentro dos poemas como símbolo da transformação do eu-lírico, o qual busca, agora, apreender a expressão de belezas e angústias indizíveis: de sangue salgado se vestem estas minhas palavras e é sangue e sal o que escrevo e mágoa ( SANT'ANNA, 1988, p.229 )

Mar, tecido de mortos e vivos, magma da memória ultrajada, cuja liquidez salgada purifica as lembranças e as palavras. Mar, reservatório de mágoas e sangues acumulados que só se fazem expurgados pelas águas da própria poesia. Mar, mergulho abissal na interioridade mítica universal e reencontro com as raízes profundas de identidades submersas: 'Porque sempre o mar : / é isso /  os mortos, as algas, as marés , os vivos' ( SANT'ANNA, 1988, p.202 )
A poética de Glória de Sant'Anna , como a poesia de Rimbaud, de Hölderlin, de Cecília Meireles, mergulha no silêncio e na musicalidade da linguagem, no 'mar absoluto' da própria poesia.
Captando a melodia cósmica das palavras, apreende a emoção do inexprimível, os sentidos profundos do existir humano universal:


Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano de tempos diversos onde também há sangue vegetal, buscando o que acabei por encontrar a imensa angústia que se reparte.
Sobre isso escrevo.
Mas cuidado : a música da palavra é um casulo de seda. Só dobando-os com olhos atentos se chega à verdade, à solidão ansiosa e disponível.
No entanto, que cada um faça a sua leitura.
( SANT'ANNA, 1988, poema da contracapa )

É uma poesia que faz opção pelo silêncio. Um silêncio, cujo significado 'fala' mais que o de poemas explicitamente engajados com o real histórico, pois é tramado pela densidade de emoções e sentimentos despertados por situações várias: de beleza, de ternura, de ódio, de dor, de medo , de angústia, de saudade.
Quando a autora, em 1974, teve de regressar a Portugal, o retorno à pátria se converteu para ela num segundo exílio.
Arrancada do mar de Pemba de que se alimentara por longo tempo, a poetisa ficou vários anos sem conseguir escrever, agora, num silêncio concreto, sem palavras. Ao recuperar a linguagem, mergulhou de novo no mar, em cujas águas, transformadas em canto, passaram a ressoar memórias, por intermédio das quais a voz lírica se reconheceu livre e inteira : eis-me solta de todas as amarras da canga a que forcei o pensamento de novo imersa nessa pura água em que me identifico e apresento (SANT'ANNA, 1988, p. 289 )
Mar e silêncio, na obra de Glória, passam a conotar depuração. Depuração de sentimentos e emoções que não se traduzem em linguagem comum, mas que se revelam na expressão indizível das metamorfoses da própria poesia:

A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras,
que não possam conter-se por completo
nas palavras.

A essência das coisas é nutri-las
tão de alegria e mágoa,
que o silêncio se ajuste à sua forma
sem mais nada.

( SANT'ANNA, 1988, p. 126 )


Mar, música e silêncio fluem na sacralidade poética instaurada pelo discurso de Glória de Sant'Anna, para quem a literatura, acima de ideologias, de partidos, de nacionalidades, de etnias ou de gêneros, assume um compromisso maior com os valores humanos e com a essência universal da arte e da própria criação poética.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOSI, Alfredo. O Ser e o tempo da poesia. SP: Cultrix, 1983.

SANT'ANNA, Glória de. Amaranto: poesias 1951-1983. Lisboa:
Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1988.

STEINER, George. Linguagem e silêncio : ensaios sobre a crise da palavra. SP: Cia das Letras, 1988.

CARMEN LUCIA TINDÓ RIBEIRO SECCO

 

 
dia  africano

Os corvos marcam
trajetórias largas pelo dia branco,
por sobre a cabeça
dos negros cantando.

Há vento disperso,
rasgando nas folhas da árvores altas,
melodias lentas
de antigas desgraças.

E restos de luz
de um sol sugerido por neves quietas,
caem dos telhados
e batem nas pedras.

Tudo hoje é denso
como uma gravura de atitude rítmica,
pousada nos vidros
cortada da Bíblia

In "Amaranto"

Pelicano Velho 

 Uma história para as criançaS de Pemba.*Escrita por Glória de Sant'Anna e editada futuramente para as Escolas do Ensino Primário de Moçambique pela "Ndjira".

 

 

quando o n'pure chega

É madrugada e o n'pure voltou e canta

para o vermelho-laranja do horizonte

e o silêncio em volta dos telhados

é longo e doce

Uma linha de fumo branco sobe

da fogueira do guarda envolto na capulana escura

e a folhagem parada freme de súbito

ao grito do n'pure

Em redor dos troncos tombaram

as primeiras-tímidas flores da acácia rubra

durante a noite (penso)

ou soltas pelas asas leves do n'pure

In "Amaranto"

quase um quadro
PA
parTINDO-SE
A negra que passa pela beira do mar
não olha a luz fria que tomba na água:
vai direita e grave.

Parece saída dum friso qualquer
de antigas ruínas duma antiguidade:
tão perfeita e calma.

O que vai sentindo, o que está a pensar
é a marca dum tempo que o seu rosto guarda:
sereno e suave.

Caminha indiferente sob a claridade
e o rasto que deixa
a espuma o apaga.

In "Amaranto"

E eis que vos ausentais teimosamente
de todas estas lágrimas vestidos
E eis que vos vejo ir e não vos digo
ficai ainda porque sois precisos

E eis que partis mesmo estando presentes
ao lado destes mortos consentidos
Eis que vos vejo e os vejo e não vos digo
ficai ainda um pouco, olhai e crede

Eis que sereis (seremos) esquecidos
mesmo por estas fímbrias de arvoredos
que foram sombras dos nossos caminhos

Eis que sereis (seremos) repartidos por (talvez) uma próxima memória
com sentinelas de perfis delidos

In "Amaranto"

SALABAI

(aí tens Salabai negra o poema que te prometi)
Salabai - podia ser o vento
deslizando nas folhas
Salabai - podia ser a chuva
tombada em leves gotas
Salabai - a palavra
que se ouve e se sonda
mas Salabai tem os olhos egípcios
na face quase negra
e perpassa sorrindo
na luz que surpreende
dia a dia hora a hora
(afinal Salabai é muito mais que tudo
o refrão matinal de uma canção de roda)

In "Amaranto"

 

 

 

 

POEMA DÉCIMO TERCEIRO

A negra tombou entre os agrestes ramos
e um súbito espanto.

(está morta
e as aves cantam)

Do seu ventre aberto ao sol que se inclina
esvai-se o longo fio que a tecia.

(está morta
e o vento desliza)

Da face suspensa na folhagem magoada
descai o lenço que se desata.

(está morta
sob a claridade)

...toda já outra sobre o trilho que seguia
ausente das marcas de ódio que pisava
guarda entre os dedos longos da mão abandonada
sinais do áspero matope que a recolherá.

(está morta e as aves cantam
e a tarde se consome toda igual)

In "Amaranto"

 

BATUQUE

Na labareda
o tambor se afeiçoa
manso, manso
pela noite toda

sob os dedos longos
ta - ã, tã
a pele se amolda
ainda não

ta - ã, tã
ta - ã, tã

os dedos são
agora unos
à pele já morna
que soa

No chão a cinza
daquele lume
que entre a cacimba
há-de ser música

In "Amaranto"

em dezembro as acácias

com tuas flores rubras farei brincos pulseiras e colares

para dar às sereias 
que na alta maré cheia
em noites brancas de lua

saem da água 
para cantar

""...É o que chamo "o fio da amizade". Um fio que não quebra e une em espontaneidade, em memórias, pelos tempos dos tempos...""- 28/04/2001

 Glória de Sant'Anna

CUMILAMBA - ao grande Embondeiro

soube hoje com mágoa
que morreste

a tua ampla figura vegetal
desfez-se
sobre o chão

mas no halo que envolvia
a tua forte e mítica presença
deixaste o coração


Glória de Sant'Anna

*Do "Bar da Tininha", Domingo, 28 de Julho de 2002, lembrando o Embondeiro de nossos sonhos de criança.

 

      

maternidade

Olho-te: és negra.
Olhas-me: sou branca.
mas sorrimos as duas
na tarde que se adianta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana
é a mesma carga humana

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes
e tão perto da morte...

que este sorriso de hoje,
na tarde que se esvai,
é o testemunho exacto
do erro das fronteiras raciais.

Dos nossos ventres altos,
os filhos que brotarem
nos chamarão com a mesma palavra.

E ambas estamos certas
-tu, negra e eu, branca-
que é dentro dos nossos ventres
que germina a esperança.


Glória de Sant'Anna - Livro UM DENSO AZUL SILÊNCIO 1965 - Colaboração de Andrea A. Paes)

 

GRITOACANTO 

eu canto as gentes vivas e as ausentes
as coisas por fazer ou já desfeitas
as empenas das casas levantadas
as empenas das casas esqueléticas

o vento a flor a pedra a dor a chuva
o perfil a palavra a mão a fome
o verme o pássaro o insecto a nuvem
e o mar e o grito e o pão que o tempo absorve

mas sobre tudo eu canto aí sobre tudo
este morrer de amar cada segundo
horizontes por que me desfiguro
à mortal palidez de um céu inútil

In "Amaranto"

 

                       

VIAGEM


Na última vaga que a contém e arrasta
a casquinha é de ouro, de vento ou de água.

Nem âncora a amarra,
nem vela a segura,
mas o pescador
cheira a sal e a espuma.

Na última vaga que a contém e solta
a casquinha é de água, de vento ou de ouro.

Nem mastro a segura,
nem leme a norteia,
mas  o pescador
cheira a sal e a areia.

(E o pescador cheira a sal e a areia
e deixa tombar sobre os búzios claros
os peixes de vidro que traz do mar largo.

E o pescador cheira a sal e a espuma
e deixa tombar sobre a areia húmida
seu longo cansaço).

A casquinha solta da última vaga,
espera sob as nuvens translúcidas,
pousada na areia como uma concha de nácar.


GLÓRIA DE SANT'ANNA-LIVRO DE ÁGUA (1961)-Colaboração de Andrea A. Paes.

                           
BATUQUE



            
    A negra salta e não cansa.

          Entre o denso mar pálido
          e a clara poeira,
          a corda balança.

          A negra se ergue e sorri.

          Entre o leve céu pálido
          e as dolentes árvores
          e o tambor que vibra.

          A negra se ergue e é esguia.

          Dentro do batuque
          e da ritmada corda
          e do morto dia.

          Não há segredo na boca tranquila da negra,
          nem antigas e vãs perguntas que se percam,
          nem místicas dúvidas ou esquecidos gestos.

          Ela se ergue como uma lança,
          e entre o céu e a poeira
          simplesmente
          dança.


GLÓRIA DE SANT'ANNA-LIVRO DE ÁGUA (1961)-Colaboração de Andrea A. Paes.

            

A CANÇÃO DO NEGRO



           
   O negro canta
            num timbre agudo
            (agudo e rápido)
            que surpreende.

            Não fala: canta
            num tom selvático
            (denso e selvático)
            alto e estrindente.

            E o ritmo é tanto
            tão bem marcado,
            tão ansioso e
            dilacerante,

            que me parece
            que está (sózinho)
            cantando as mágoas
            de toda a gente.

GLÓRIA DE SANT'ANNA-UM DENSO AZUL SILÊNCIO-1965-Colaboração de Andrea A. Paes.

 

 

 

 


Com desenho de capa de autoria da poetisa Glória de Sant'Anna e organização textual de Inez Andrade Paes, já se encontra disponível para aquisição e leitura esta recolha de crônicas de nossa poetisa, publicadas ao longo do tempo no jornal "Letras & Letras"-Porto.

Os  interessados em informações adicionais ou em possuir esta obra deverão contatar Inez Andrade Paes pelo e-mail:

Pelicano Velho 

 Uma história para as criançaS de Pemba.*Escrita por Glória de Sant'Anna e editada futuramente para as Escolas do Ensino Primário de Moçambique pela "Ndjira".

 


Entre cidades irmãs fala-se do construtor de Porto Amélia-Pemba

 

Transcrição - Jornal João Semana - Ovar - 1 de Junho de 2004

Sobre Afonso Henriques Andrade Paes:

Memórias a preto e branco

Achámos curiosa e digna de registo esta referência do Dr. Camilo de Araújo Correia, filho do grande escritor João de Araújo Correia, a um Vareiro que conheceu bem em Porto Amélia, Moçambique, publicada no jornal "O Arrais", da Régua.

“(...) No meu tempo, o grande construtor civil de Porto Amélia era o arquitecto Afonso Henriques de Andrade Paes. Os seus camiões amarelos com grandes letras da cada lado (A.H.A.P.) estavam sempre a passar e repassar.

O encarregado das obras de Andrade Paes era um homem simpático, eficiente e surdo. Para ir ouvindo alguma coisa, usava um aparelho.Um aparelho auditivo de quarenta anos... Constava de uma grande pilha metida no bolso do lado esquerdo do peito e de um fio que, partindo daí, terminava numa oliva introduzida no ouvido. Foi este fio que veio a caracterizar o homem de confiança de Andrade Paes. Entre negros era conhecido por mucunha narame (senhor arame).

Porto Amélia... Porto Amélia...”

Camilo de Araújo Correia ("O Arrais")


O Arquitecto Afonso Henriques Andrade Paes, natural de Válega (da família Soares Paes, comerciantes em Ovar), formado na Escola de Belas Artes do Porto, casado com a escritora Glória de Sant’Ana, nossa ilustre colaboradora, partiu, aos 25 anos, para Moçambique, onde fez trabalhos da sua especialidade em Nampula, cidade onde viveu 2 anos e onde fez o seu 1° projecto de construção civil, e em Porto Amélia, para onde partiu, a pedido do Governador, que lhe encomendou um projecto de casas sociais, ali constituindo a sua empresa (A.H.A.P) de Arquitectura, Engenharia e Construção.

Obs.:  As cidades de Ovar e Peso da Régua são consideradas "Irmãs"... Existe em Ovar a "rua da Régua" e na Régua a "rua das Vareiras".

*Vareiros(as) são designados os naturais de Ovar.


E é  bom lembrar e repetir que as ruas e recantos de Pemba sempre irão "falar" deste seu incansável obreiro...
J. L. Gabão

 

moçambique - cabo delgado - anos cinquenta - glória de sant'anna

"Vamos a Palma?"

Vamos. Vamos rodando mais para o norte no que se considera o melhor carro para solavancos - o pequeno e útil 'carocha'.

É tempo seco. O perigo do matope não existe. Há sim a paisagem intensa de verdes e de água plana apenas mormurante do rio com nenúfares lilazes. E os pássaros gritadores colorindo de riscos de fulgor o largo espaço aberto.

A baixa do M'salo preocupa-me porque é uma enorme extensão percorrida por caça grossa que ali vem beber ao pôr do sol, desafiando os olhos sornas dos grandes crocodilos.

Mas o pôr do sol vem muito longe ainda.

(É hora dos animais beberem. Ninguém sai de casa. - digo eu algumas vezes às crianças.)

Pára-se para o batelão puxado por cordas. Sai-se. Há uma grandiosidade de princípio do mundo no silêncio de mil olhos escondidos.

Algo me identifica com o sangue vegetal vibrante e vivo.

Já alguém reparou que nos troncos rugosos há uma aura suave de calor?

"Disseste alguma coisa?"

"Não. Não disse."

Está passado o M'salo e os rastos dos animais nas margens.

São ravinas, agora. Terreno onde a luz chispa vagamente, e que os antílopes e outros, vêm lamber porque é área de sal e gema. Uma vez por outra juntam-se em manadas e saciam-se.

Terra de macondes. Os artistas guerreiros cujas mulheres faladoras e descontraídas de repente me sorriem. E algumas aconchegando-se, apalpam o pano do meu vestido para ver como é. E conversam. E riem.

Nas mais novas o disco de pau preto ainda pequeno inserido no lábio superior, dá-lhes uma expressão de amuo.

(Foi em Pemba que vi o primeiro maconde. Novo, alto, de rosto tatuado e sorriso largo aberto sobre os dentes em serrilha.

Olhou os quadros dos pintores brancos postos nas paredes, com uma seriedade curiosa.

Aliás ele tinha sido convidado a ver outra forma de arte. E frente a um óleo estendeu a mão e percorreu a textura. Um dedo cauteloso e atento.

Ele, como eu, ouviu a explicação breve do dono da casa sobre técnicas e formas e materiais usados pelos artistas em concepções de estética.

Dias depois voltou sempre com aquela maneira de sorrir, trazendo a mulher tão nova como ele, bonita e de rosto liso.

E como marco de um ínicio de amizade, ofereceu um pequeno jacaré de marfim que esculpira na missão cristã onde estudou.)

Em casa do chefe de posto somos convidados a comer e a ficar. (Este hábito africano de portas abertas para a hospitalidade).

A dona da casa tem olhos verdes e cabelo preto encaracolado. Nasceu-lhe há pouco o primeiro filho.

"Palma é a solidão, é o extremo de tudo. Estou cansada. Tão cansada que nem pode supôr" - diz ela que na manhã seguinte na praia de areia muito fina, me adverte num sobressalto nervoso:

"Nunca se sente debaixo de um coqueiro!  Um côco maduro cai sozinho!"

Há risadas espontâneas.

Quantos anos passaram já desde que os palmares são meus conhecidos? A sombra das longas folhas, a casca fibrosa do fruto melhor do que uma escova para dar brilho ao chão, a magnífica e fresca 'água do lenho' - bebida do côco verde.

A conversa incide sobre assuntos diversos: o decorrer dos dias; contentamentos; e descontetamentos, que não levarão muito tempo a surgir à tona da estrutura social.

Um cipaio aproxima-se dizendo que andam elefantes por perto.

"Vamos afugentá-los para não destruirem as culturas", diz o chefe de posto. "Alguém quer vir?"

Eu deixo-me ficar com Elsa sempre queixosa, mas que tem um bom senso de humor.

Continuo na tranquilidade da praia fresca de sabor salgado em terra de macondes, de entre os quais poucos anos depois e em tempo de guerra haverá um novo amigo escultor.

(In Ao Ritmo da Memória - recolha de algumas crónocas publicadas no jornal Letras & Letras do Porto)

PORTO AMÉLIA-PEMBA INSPIRAVA POETAS COMO GLÓRIA DE SANT'ANNA... APERCEBA-SE DE SEUS POEMAS NESTA PÁGINA...

Glória de Sant'Anna conferênciando sobre Gil Vicente na então (quando Moçambique era colónia de Portugal) Porto Amélia, hoje denominada Pemba.

Glória de Sant'Anna falando de Gil Vicente na então Câmara Municipal de Porto Amélia, hoje denominada Pemba.

CANÇÃO DO MAR

O pescador anda ao largo

todo perdido do mundo

-repartido entre o horizonte

e o azul fundo.

Vai a casquinha impelida

pelo vento grave

e a rede colhendo as horas

dentro do mar.

(vai o destino passando

ao mesmo tempo

pelo pescador, pela rede,

pelo mar e pelo vento).

GLÓRIA DE SANT'ANNA

 

© Jaime Luis Gabão - 21 de Outubro de 2000 - Home Page Pemba e Régua  - Última alteração em 03/06/2009 20:55:47

        

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