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No Moçambique que
precedeu a independência, a qual teve lugar em 25 de Junho de 1975, muita coisa
aconteceu, como não é sabido de toda a gente. Na realidade, não é sabido de
quase ninguém, exceto de uns poucos ( e não todos) que lá viveram.
Muito se tem
escrito, sobretudo no pelouro em que impera o "discurso político",
acerca do que foi ou não foi o chamado período colonial português. Seja dito
de passagem que mais se tem falado do que acertado. É com lindos sentimentos
que se faz má literatura, disse-o um dia Gide, irritando Claudel, e é também
com angélicas intenções que se trai, frequentemente, os mandatos da
história. Não deixa sobretudo de ser curiosa a fácil boa consciência de
quem, no chamado Portugal continental, bem mais se aproveitou (e prosperou) com
a exploração colonial do que tantos que pelo ultramar tristemente se
alienaram, pobre e honradamente viveram e, para o fim, alucinadamente se
desintegraram. De gente séria, pobre e perplexa ( e não só da outra), está a
história de Moçambique também cheia, como não é do conhecimento
confortável de algumas consciências bastante poluídas, que depois facilmente
se reconciliaram consigo próprias, por vias mais ou menos expeditas... ... ...
... ...Com a publicação, em 1961, em Moçambique, do livro de poemas
"Livro de Água", laureado com o premio Camilo Pessanha,
confirmava-se, para alguns, e revelava-se, para muitos outros, um dos nomes mais
importantes da poesia portuguesa, em Moçambique, e um dos poetas mais
notáveis, em língua portuguesa, dos últimos vinte e cinco anos: Glória de
Sant'Anna. Para o leitor da antiga "metrópole", um livro em língua portuguesa, publicado em Moçambique, Angola ou também em Cabo Verde, era, por
assim dizer, um livro "perdido". Os nomes de Rui Knopfli, Sebastião
Alba, Glória de Sant'Anna, Lourenço de Carvalho e, até certo ponto, mesmo o
de João Pedro Grabato Dias, entre outros, nada ou quase nada significavam para
o leitor confinado, como diria Jorge de Sena, entre o Chiado e a Rua Ferreira
Borges.... ... ... ...Não se sabia muito bem quem eram, o que faziam, o que
pensavam... E o fato de estarem a viver "lá" era já, em principio,
um motivo de apreensão. ... ... ... Glória de Sant'Anna foi, para Moçambique,
um produto de importação. Nascida em Lisboa, em 26 de maio de 1925, concluiu
o curso complementar de Letras no Colégio de Odivelas, casou em 1949 e, dois
anos depois, partiu para aquela colônia portuguesa onde fixou residência, em
Nampula. Em 1953 mudou-se, com sua família, para Porto Amélia (hoje Pemba),
onde permaneceu, frente à vasta baía, quase até ao regresso definitivo a
Portugal, em Dezembro de 1974 ( os dois últimos anos passou-os a poetisa em
Vila Pery).... ... ...O "seu chão" fora Pemba, o mar, a água, o
"vento de prata/manso, manso". O "mar calmo e
estranho" tornara-se a presença fraterna, terapêutica, ameaçadora,
tranquila, lisa, ominosa, às vezes trágica-densa, sempre vigilante. E os
momentos passados à sua beira exprimiam a dignidade de momentos
"translúcidos e antigos". Arrancada deste chão onde se
encontrava "inteira", o exílio em que, ironicamente, se traduziu o
regresso à pátria teve consequências traumáticas. ... ... Isto é, durante
cerca de quatro anos, nada produziu.
Em Portugal, de
Norte para Sul e do Sul para Norte, entre Ovar e o Algarve, tentando
reencontrar o rumo que não havia (o mar, que é bom "porque
é concreto", ficara para trás), Glória de Sant'Anna foi sobrevivendo
ao rés de um desespero nem sempre inteiramente dominado. ... ... ...Durante
vários anos arredada do "seu" mar, que era em Pemba, e da
"sua" escrita, que dele se alimentara, Glória de Sant'Anna fixou-se
finalmente em Ovar: - "Atualmente, na minha condição de aposentada,
reparto o tempo pela casa e pela família e ajudo o meu marido num gabinete de
arquitectura e obras, que abriu perto daqui".
A obra de
Glória de Sant'Anna, na sua concentração e densidade, na sua liquidez
secreta e cheia de pudor, na sua misteriosa claridade, na sua
"mortal" e dominada angústia, consta essencialmente de sete
livros publicados, seis de poesia ( Distância, 1951; Música Ausente, 1954;
Livro de Água, 1961; Poemas do Tempo Agreste, 1964; Um Denso Azul Silêncio,
1965 e Desde que o Mundo e 32 poemas de Intervalo, 1972) e um de crônicas
(...Do Tempo Inútil, 1975). Além destes o volume agora editado (1984) inclui
4 livros inéditos: A Escuna Angra (1966-68); Cancioneiro Incompleto (temas de
guerra em Moçambique, 1961-71); Gritoacanto (1970-74 e cantares de
Interpretação (1968-73. O resto é trabalho disperso por revistas e jornais:
Diário Popular, Guardian (Lourenço Marques), Itinerário (L. M.) Diário de
Moçambique (Beira) Noticias (L.M.), Tribuna (L.M.), Sul (Brasil) e Caliban
(L.M.).
Glória de
Sant'Anna tornou-se quase desde o seu "aparecimento" discreto, uma
das vozes mais geralmente reverenciadas, no panorama literário de
Moçambique. Mas aquilo a que poderíamos, sem exagero, chamar a sua
"glória", nada teve de ruidoso. A autora do Livro de Água foi
sempre um personagem de um pudor e "retiro" exemplares, na feira
intelectual que, em Moçambique, como em todo o lado, tinha os seus
profissionais da promoção e da acrobacia. "Serei tão secreta/como o
tecido da água" afirmará ela, num dos seus poemas. De fato, toda a sua
obra, de um extremo ao outro, é um alongado programa de homenagem à nobreza
do "silêncio" e do "falar pouco"... ... ...
... ... ...Dizia
um grande escritor deste século que sofria por causa dos homens a quem se
não dá o lugar que merecem. E acrescentava haver nas letras francesas de
hoje alguns exemplos dessa injustiça, por omissão. Há nas letras
portuguesas de hoje também alguns exemplos disso.
Glória de Sant'Anna é um deles, mas não é caso único. Entre os escritores
que a ressaca da descolonização trouxe até estas paragens, há uma boa meia
dúzia a pedir que os publiquem, os estudem e os divulguem. Constitui para mim
uma honra e um privilégio esta tentativa de procurar a autora dos Poemas do
Tempo Agreste "completa dentro desta pura água", para a dar a
conhecer a um público distraído, mas eventualmente capaz de lhe reconhecer a
estatura. Honra idêntica me daria poder fazê-lo por outros. O silêncio que
sobre eles pesa, um silêncio morto, não é por certo o fecundo e "denso
azul silêncio" que irriga e impregna o claro e enigmático discurso
poético de Glória de Sant'Anna.
EUGÉNIO
LISBOA - Londres, Dezembro 1983/Janeiro 1984 - transcrito do Livro
Amaranto
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glória
de sant'anna : uma poética de mar e silêncio ! |
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Por
CARMEN LUCIA TINDO RIBEIRO SECCO - Doutora em Letras Vernáculas e Profª. de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade
Federal do Rio de Janeiro- UFRJ.
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O silêncio
funda um outro discurso, que não o comum; entretanto , é linguagem de grande teor
significativo ( STEINER, 1988, p. 73 ).
Mar, silêncio e solidão atravessam a obra poética de Glória de
SantAnna, cuja linguagem flui numa liquidez profunda, articulada por uma semântica aquática e abissal, que busca apreender os
mistérios da alma humana.
Por ter nascido em Lisboa e por ser sua poesia de cunho predominantemente universal, versando sobre temas existenciais, a
poesia de Glória de SantAnna, durante algum tempo, não foi considerada como pertencente ao patrimônio literário moçambicano, embora grande
parte de seus poemas tenha sido produzida durante os vinte e três anos vividos por ela em Moçambique. Consideramos esse critério
bastante discutível, pois apenas leva em consideração a pátria de nascimento da autora, ignorando os pactos afetivos de
identificação tecidos durante sua longa vivência em terras africanas.
Em 1951, recém-casada, Glória mudou-se para Nampula, cidade moçambicana onde viveu até 1953, ocasião em que se transferiu para
Porto Amélia, hoje Pemba, outra cidade do litoral moçambicano.
Seus primeiros livros foram publicados nessa época: Distância (1951) e Música Ausente (1954). Nessas obras, é clara a
desterritorialização do sujeito poético, cuja face, sobre o azul vogando (SANT'ANNA, 1988, p.47 ) se revela perdida,
refletindo a imagem da própria identidade fraturada que não se reconhecia ainda nas paisagens africanas. Com o coração inteiro/ no
fundo do oceano ( op. cit., p.35 ), o eu-poético tem consciência de
seu naufrágio interior. Mergulha, então, nas marítimas águas do exílio, e, através de uma linguagem poética reflexiva, procura alguns
pontos de ancoragem com as fronteiras diluídas da pátria distante.
Nos dois primeiros livros de Glória, domina uma semântica de vaguidão. As
reminiscências da voz lírica se encontram esmaecidas, sem nenhum referencial, a não ser o oceano de prata que se esvai
em longínquos horizontes e se configura, ainda, como um território vazio de memórias, conforme denunciam os versos do poema Música
Ausente: Na minha lembrança batem águas de vidro / de um mar sem sentido.( op. cit., p.53 )
Nas composições poéticas dessa fase, amargura, degredo e solidão aprisionam o sujeito lírico, que, sem uma fisionomia
definida, se fecha em sua interioridade, à procura de elos emotivos capazes de equilibrarem sua subjetividade cindida entre duas pátrias.
É, pela contemplação do mar de Pemba e pelo exercício da poesia, que consegue alento para ultrapassar o desenraizamento provocado pela
saída da terra natal para viver em terras alheias.
À medida que se contempla existencialmente no espelho das marítimas águas, o sujeito poético vai se encontrando e ,
naturalmente, começa a incluir em seus versos novas paisagens e pessoas. Do âmago das palavras emanam, então, emoções fraternas em
relação ao povo moçambicano : Que importa seres meu irmão noutro país? (op.cit., p.56) indaga-se o sujeito lírico, com o coração
já se abrindo aos novos horizontes.
Cartografias geográficas, culturais e humanas de Moçambique vão, aos poucos,
integrando o imaginário literário da poesia de Glória de Sant'Anna, que, lentamente, passa a captar os ritmos e
batuques africanos ( Poema Batuque,op. cit. 63 ), como também as danças das negras à beira-mar:
Negrinha faceira,
dentro da água cálida,
quem olhará
tua graça?
Ou quem verá teu riso
esparso
entre uma onda translúcida
e um sargaço?
(...)
Os teus pés estão sobre os búzios claros
e vazios,
e há música e sol
em teus ouvidos.
Mas quem passa, deixando pegadas na areia,
não olha para ti, negrinha faceira.
( SANT'ANNA, 1988, p.62 )
Afirmando-se por um ethos existencial e humano, a poética de Glória, com imensa sensibilidade e delicadeza de sentimentos, também
critica os preconceitos raciais presentes em Moçambique; só que o faz de forma suave, velada e sutil.
Contemporâneos da chamada poesia da moçambicanidade, seus poemas de Música Ausente ( 1954 ) e do Livro de Água (publicado em
1961, mas com poemas escritos na década de 50 ), embora não se utilizem do estilo veemente com que, por exemplo, Noêmia de Souza
e José Craveirinha celebraram, nos anos 50, os valores autenticamente moçambicanos, também cantam as belezas africanas :
( Do fundo do tempo a negra se curva
sobre a inquieta água
e sobre seu cesto redondo
de palha entrançada.
Por dentro da tarde a negra se curva
no horizonte fechado,
o seu gesto é ancestral
e cansado).
( SANT'ANNA, 1988, p. 63 )
Laureada com o prêmio Camilo Pessanha, em 1961, por seu Livro de Água, Glória de Sant'Anna tornou-se reconhecida literariamente.
Continuou a escrever nos anos 60 e 70, e sua obra se manteve fiel à linha existencial por que optou desde o início de sua trajetória
poética. Embora acompanhasse as mudanças sociais por que passava a sociedade moçambicana, a poesia de Glória, nos anos de guerra a que
ela chamou de 'tempos agrestes', não enveredou pelo ethos militante e
revolucionário que dominou o panorama literário de Moçambique nesse período. Apesar de muitos de seus poemas terem denunciado os
malefícios dessa época de lutas e violências, sua poética fez a opção pelo silêncio e pela metáfora, alinhando-se, por isso, ao lado
dos poetas do Grupo Caliban, como Rui Knopfli, Sebastião Alba, entre outros, que, para driblarem a censura e repressão, enveredaram por
caminhos poéticos universalistas e existenciais, sem, contudo, deixarem de problematizar as questões sociais.
O trabalho poético é às vezes acusado de ignorar ou suspender a praxis. Na verdade, é uma suspensão momentânea e, bem pesadas as
coisas, uma suspensão aparente. Projetando na consciência do leitor imagens do mundo e do homem muito mais vivas e reais do que
as forjadas pelas ideologias, o poema acende o desejo de uma outra
existência, mais livre e mais bela (...), pela qual vale a pena lutar . ( BOSI, 1983, p.192 )
Em tempos desumanos, de brutalidade e jugo totalitário, há poetas que ultrapassam os ângulos limitados de políticas
panfletárias, não tomando partido direto e radical, embora
criticando as arbitrariedades do poder. É o caso de Glória de Sant'Anna e dos poetas de Caliban, que captaram a angústia das
possíveis e cruéis injustiças, denunciando o sem sentido da força e ressaltando a importância do existir humano. O silêncio, nos versos
desses poetas, fala, expressa a recusa do apenas circunstancial e político. Penetra os espaços abissais da própria poesia, buscando a
expressão do puro, do indelével, dos sentimentos mais recônditos da alma humana universalmente concebida.
Essa poesia foi, nos tempos de combate, considerada por alguns mais sectários como reacionária. Hoje, entretanto,
não mais é vista assim, pois muitos críticos literários contemporâneos
sabem que a saudade de tempos que parecem mais humanos nunca é reacionária.
(...) Reacionária é a justificação do mal em qualquer tempo.
Reacionário é o olhar cúmplice da opressão. Mas o que move os sentimentos e aquece o gesto ritual é, sempre, um valor: a comunhão
com a natureza, com os homens, (...) com a totalidade. ( BOSI, 1983, p.153 )
Os poetas de Caliban denunciaram as desumanidades da guerra e mostraram a necessidade de recuperar valores existenciais mais
profundos. Glória de Sant'Anna, em muitos de seus poemas escritos de 1964-1974,
criticou o sem sentido da guerra que, para ela, igualou os soldados revolucionários e os cipaios ( SANT'ANNA,
Amaranto, p.164, p. 176 ). Comoveu-se com as mortes, chorou com a chuva sobre o rosto do cadáver do negrinho estirado no chão ( op.
cit. p. 99 e p.100), acumpliciando-se com as mães negras que perderam seus filhos nas lutas. E, como mulher, se identificou às negras,
celebrando o sentimento universal da maternidade:
Olho-te : és negra.
Olhas-me: sou branca.
Mas sorrimos as duas
na tarde que se adeanta.
Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana.
Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,
seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes,
E tão perto da morte...
( SANT'ANNA, 1988, p. 119 )
Nos poemas onde Glória denuncia a urgência de sangue exigida pela guerra, o mar se faz ausente. A voz lírica se tece da
angústia de um silêncio diferente, porque forjado por medos e atrocidades. Um silêncio de ciprestes, esquifes e espadas cegas. Um
silêncio de anulação da arte e da vida.
No poema Sexto do livro Cancioneiro Incompleto ( temas da guerra em Moçambique , 1961 - 1971 ), de Glória de
Sant'Anna, o sujeito poético condena a violência que destruiu os macondes, cujas esculturas celebra :
(...)
( cada figura crescia de suas mãos negras
como se brotasse da sua própria fina pele
solta para a claridade e portadora
de igual agreste impulso
e em seu rosto
e em suas pupilas alagadas
era o mesmo secreto tempo de amar )
Hoje o pesado e oculto pau preto
jaz dentro da ausência
pleno de irreconhecíveis figuras
que perpassam iguais às da nossa memória(...)
( SANT'ANNA, 1988, p. 167-168 )
Por entre sons de canhões e agrestes perplexidades diante da morte de pessoas
inocentes, a poesia de Glória capta também a suavidade do mar , o canto dos negros e os tã-tãs dos tambores
moçambicanos ( Op. cit., p.201). Por entre os silêncios de lucidez crítica, seus versos assumem a consciência do fazer estético
e, em meio às lacunas da denúncia explícita da opressão, teoriza sobre sua própria arte poética:
Um poema é sempre
uma qualquer angústia que transborda.
( E eu posso cantá-lo de amor
posso cantá-lo de ódio
posso cantá-lo de roda...)
Um poema é sempre
como um rebento novo que se desdobra.
( E eu posso cantá-lo ao sol
posso cantá-lo de água
posso cantá-lo de sombra...)
Um poema é sempre
como uma lágrima que se solta.
( E eu posso cantá-lo como quiser:
há sempre uma palavra que me esconda...)
( SANT'ANNA, 1988, p. 97 )
Metalinguagem, sensibilidade e silêncio levam a voz lírica a profundas reflexões sobre a sua textualidade poética que, de grito a
canto, se reconhece mar, vento, som, melodia. O oceano traz as correntes submersas da memória. Mudanças atmosféricas marcam
o ritmo introspectivo das lembranças e das catarses históricas.
Alterações cromáticas, luminosas e sonoras trazem o vento para dentro dos poemas
como símbolo da transformação do eu-lírico, o qual busca, agora, apreender a expressão de belezas e angústias indizíveis:
de sangue salgado se vestem estas minhas palavras e é sangue e sal o que escrevo e mágoa ( SANT'ANNA, 1988, p.229 )
Mar, tecido de mortos e vivos, magma da memória ultrajada, cuja liquidez salgada purifica as lembranças e as palavras. Mar,
reservatório de mágoas e sangues acumulados que só se fazem expurgados pelas águas da própria poesia. Mar, mergulho abissal na
interioridade mítica universal e reencontro com as raízes profundas de identidades submersas: 'Porque sempre o mar : / é isso /
os mortos, as algas, as marés , os vivos' ( SANT'ANNA, 1988, p.202 )
A poética de Glória de Sant'Anna , como a poesia de Rimbaud, de Hölderlin, de Cecília Meireles, mergulha no silêncio e
na musicalidade da linguagem, no 'mar absoluto' da própria poesia.
Captando a melodia cósmica das palavras, apreende a emoção do inexprimível, os sentidos profundos do existir humano universal:
Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano de tempos diversos onde também há sangue vegetal, buscando o que acabei por encontrar a
imensa angústia que se reparte.
Sobre isso escrevo.
Mas cuidado : a música da palavra é um casulo de seda. Só dobando-os com olhos
atentos se chega à verdade, à solidão ansiosa e disponível.
No entanto, que cada um faça a sua leitura.
( SANT'ANNA, 1988, poema da contracapa )
É uma poesia que faz opção pelo silêncio. Um silêncio, cujo significado 'fala' mais que o de poemas explicitamente
engajados com o real histórico, pois é tramado pela densidade de emoções e sentimentos despertados por situações várias: de beleza, de
ternura, de ódio, de dor, de medo , de angústia, de saudade.
Quando a autora, em 1974, teve de regressar a Portugal, o retorno à pátria se converteu para ela num segundo exílio.
Arrancada do mar de Pemba de que se alimentara por longo tempo, a poetisa ficou vários anos sem conseguir escrever, agora, num silêncio
concreto, sem palavras. Ao recuperar a linguagem, mergulhou de novo no mar, em cujas águas, transformadas em canto, passaram a ressoar
memórias, por intermédio das quais a voz lírica se reconheceu livre e inteira : eis-me solta de todas as amarras da canga a que forcei o
pensamento de novo imersa nessa pura água em que me identifico e
apresento (SANT'ANNA, 1988, p. 289 )
Mar e silêncio, na obra de Glória, passam a conotar depuração. Depuração
de sentimentos e emoções que não se traduzem em linguagem comum, mas que
se revelam na expressão indizível das metamorfoses da própria poesia:
A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras,
que não possam conter-se por completo
nas palavras.
A essência das coisas é nutri-las
tão de alegria e mágoa,
que o silêncio se ajuste à sua forma
sem mais nada. ( SANT'ANNA, 1988, p. 126 )
Mar, música e silêncio fluem na sacralidade poética instaurada pelo discurso de Glória de Sant'Anna, para quem a
literatura, acima de ideologias, de partidos, de nacionalidades, de etnias ou de gêneros, assume um compromisso maior com os valores
humanos e com a essência universal da arte e da própria criação poética.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOSI, Alfredo. O Ser e o tempo da poesia. SP: Cultrix, 1983.
SANT'ANNA, Glória de. Amaranto: poesias 1951-1983. Lisboa:
Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1988.
STEINER, George. Linguagem e silêncio : ensaios sobre a crise da palavra. SP: Cia das Letras, 1988.
CARMEN LUCIA TINDÓ RIBEIRO SECCO
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