PORTO AMÉLIA «» PEMBA  - IMAGENS 1

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A CIDADE DE PEMBA ENCONTRA-SE LOCALIZADA NA BAÍA DO MESMO NOME (BAÍA DE PEMBA - A 3ª MAIOR BAÍA DO MUNDO). SEU AFASTAMENTO DAS CIDADES E CORREDORES RODOVIÁRIOS MAIS DESENVOLVIDOS DO CENTRO E SUL DE MOÇAMBIQUE PERMITE A PRESERVAÇÃO DE ENCANTOS NATURAIS E A INIGUALÁVEL BELEZA DE SUAS PRAIAS.

HISTORIA  DE PORTO ÀMELIA  - FAROL  MARINGANHA

IV. A GENTE E A SOCIEDADE

A população de Pemba é bastante heterogénea, tendo para lá emi­grado do interior os macuas, os ngonis ou mafites e os macondes.

Do litoral, os nguja do Tanganica, os sacalaves do Madagáscar e os mujojos das Comores. A civilização europeia, particularmente a trazida pelos portugueses é também notória, já que ali a colonização assimilou grande parte da população, mesmo a não mista.

Nas regiões circunvizinhas à cidade de Pemba existiam já antes da ocupação pelos portugueses algumas povoações chefiadas por ré­gulos, sendo o principal o sultão Mugabo, seguido de outros como o Said Ali, Mutica, Macesse e o Mugona.

O Governador de Cabo Delgado que, em em 1857 foi incumbido de ocupar a região e aí formar uma colónia, faz especial referência ao "velho" Mutica que, à excepção dos outros, falava ainda a língua portuguesa e muito contribuirá para o sucesso das negociações.

Fortemente swahilizados estes régulos que se expressavam e escre­viam geralmente em árabe, edificaram sociedades semi-feudais cuja autonomia se manteve ao longo dos tempos, até mesmo hoje, con­tinuando a exercer grande influência e poder no seio da população, cujo principal credo é o maometanismo mesclado de antigas tradições fetichistas como em quase todas as regiões da província.

A estas autoridades de relações amigáveis e até mesmo honestas com outros povos em certas alturas, também não lhes faltaram momentos de agitação e saque.

Já em 1843 o cheique Macesse, que chefiava a região actualmente conhecida por Pemba-Metuge, revolta-se contra a submissão aos portugueses, expulsando a companhia militar portuguesa estacionada num navio à entrada da baía de Pemba. Como corolário do desenrolar destes acontecimentos o cheique Macesse devolve a bandeira por­tuguesa às autoridades coloniais nas mãos do ajudante de Arimba, José F. Carrilho e recusando-se a pagar qualquer espécie de tributo.

Salientam-se também as investidas feitas pelos régulos Mugabo, Said Ali e outros contra caravanas europeias no circuito de Quissanga, obrigando-as a uma rota que levaria a mercadoria antes para Porto Amélia.

Se por um lado isto viria a abrir um caminho para o desenvolvimento de Porto Amélia a finais do século XIX, não menos verdade é que o facto veio a onerar bastante o processo de embarque e desembarque da carga já que Quissanga comunicando mais directamente com o "medo" era o principal porto exportador de então para o comércio e tráfico “ajaua-meto”.

A maior parte dos régulos antes da segunda década do nosso século se submetiam, na cintura de Pemba, ao régulo Mugabo, cujas terras confinavam com as da "coroa do medo", estas chefiadas pelo pode­roso maravi Mualia, ora submetido ora sublevado aos portugueses.

O quadro etnológico da população de Pemba remonta-se principal­mente à fusão do grupo macua com castas muani, penetrados res­pectivamente a partir de Murrébue e Quissanga.

Embora de diferentes origens as populações de Pemba se subordi­navam ao régulo Muária também de origem maravi.

O regulado Muária nasce cerca de inícios dos anos de 1880 quando famílias como Heri e Bachir pertencentes ao mesmo clã atingindo a região do medo avançam em direcção ao litoral pela rota Chiúre/ Mecufi/Murrébue.

De acordo com a "rainha" Muamba Omar Ussofo mais conhecida por Nhanicuto e descendente dos Muária, a dinastia se inicia com um tal Heri l na região de Changa (Murrébue) nas terras do régulo Nampuipui.

À morte de Heri l sucede ao trono Heri II que, para não defrontar o régulo Nampuipui que lhe fizera guerra acusando-o de ocupação ilícita das suas terras e compromisso com os portugueses, foge e refugia-se em Pemba na área da Maringanha. Parte do clã seguiu para Quissanga.

O successor de Heri II foi Remane Bachir que viajando para a África do Sul, como era seu hábito levando consigo voluntários (de acordo com a fonte ) que para lá queriam ir viver, foi chamado para assumir o cargo e é nessa altura adoptado o cognome de "Muária" para o regulado que agora começava.

Muitas vezes se fala de Muária como tendo alguma relação de parentesco, de clã ou mesmo qualquer outra com o regulo Muália, o que é negado por Muamba Ussofo, mas pode sobreviver a ideia de auto-identificação com o poderoso e conterrâneo maravi das terras do medo.

Amad Ali, avô do régulo Remane Bachir, descobre a zona de Marindima em Pemba e mobiliza a sua família e a gente de Changa para a habitar, o que veio a acontecer.

No entanto, fugitivos aos ataques dos ngonis, que lançavam as suas investidas com armas de fogo e azagaias a partir do ponto da colina que cai a pique na região de Marindima, bem como pelo facto de ali não haver água potável, a população deixa a zona e vai fixar-se junto às lagoas de Natite.

É então que Remane Bachir manda limpar as áreas de Nuno e Ingonane para ser habitada colocando lá como chefes dois familiares seus, nomeadamente as rainhas Nhanicuto e Nhacoto.

Enquanto isto o régulo Remane Bachir Muária entrega o Wimbi ao chefe Namacoma e a região compreendida entre o Nanhimbe e Maringanha ao seu irmão capitão-mor Tagir Bachir.

Anra Bachir sucede a Remane no regulado Muária e tendo este morrido fica como sucessor o seu sobrinho Fadili Adi, seguindo-se - lhe o seu irmão Anli Mugola.

Durante o reinado de Anli Mugola, este entregou a zona do Cariacó ao chefe Amada Muária, já na década de 60 do nosso século, que ao ser preso pela Pide é substituído por Abdul Latifo Ncuo.

Para além das já citadas rainhas o Paquitequete teve ao longo dos tempos ate à independência de Moçambique outros chefes, no­meadamente Mussa Amad, Pira Anlaue, Said N’Ttondo, entre outros.

Das relações com as autoridades coloniais que, mesmo antes de ocupar a região mandavam anualmente um encarregado de cobrança do imposto, a velha Omar Ossofo relata que quando chegava tal enviado eram içadas três bandeiras portuguesas: uma na praia junto à ponta Romero, a outra à frente da residência do régulo Remane e a terceira no quintal deste.

A população para não pagar o imposto abandonava as suas casas e internava-se mais para o interior e o funcionário da administração colonial em acto de vingança queimava todas as residências, obri­gando a população a construir alpendres provisórios após a sua retirada.

Em língua macua “marapata” significa alpendre ou algo provisório, alcunha que a população deu ao dito funcionário.

Nessa altura a designação de Pemba limitava-se somente a uma pequena área, próximo à ponta Miranembo, onde o governador colonial Jerónimo Romero havia instalado o "Estabelecimento da Baia" e construído um fortim que a população de Muária usou como refúgio nas razias que os sacalaves levaram a cabo.

Embora fora dos parâmetros deste estudo mas para dar uma ideia mais ampla da distribuição territorial do regulado Muária podemos acrescentar que dados de 1970 indicam que o régulo Ntondo, ocupava em Porto Amélia uma área de 1.042 km2 (Paquitequete), seguido do propriamente chamado Muária em Natite com 264 km2, Namacoma no Wimbi com 504 km2,  o Piripiri no Gingone chefiando uma área de 8 km2 e o Nansure do Cariacó a Changa com 230 km2. (3)

Considerando por outro lado que os portugueses recrutavam na região do medo os carregadores para as suas caravanas é óbvio que muitos deles em Pemba se foram fixando, o mesmo sucedendo à gente migrada das regiões costeiras.

Os conflitos tribais que sempre existiram entre ambas as etnias (e para um período mais curto também com os macondes) eram compensados pelas trocas comerciais, sobretudo o contrabando e tráfico de toda a espécie.

Apesar de Pemba ser zona costeira, provida de uma enorme baía, muito pouca gente se dedica hoje à pesca, absorvendo o sector pes­queiro apenas cerca de 200 pescadores (dados de 1987) que em suas casquinhas, lanchas e algumas pequenas embarcações fazem não mais que uma produção anual de 150 toneladas de pescado. É também verdade que a intensiva exploração ao longo dos tempos dentro e ao largo da baía, tornaram os recursos marinhos mais escassos.

De marinho típico é, por aquelas bandas, verem-se, nas vazantes das águas com bastante afluxo no período das marés vivas, mulheres, homens e até mesmo crianças de tenra idade ora cercando peixe  muidinho com finas malhas ora apanhando conchas ou moluscos comestíveis.

Tão típico é isto quanto o prazer de encontros amigáveis na praia ao nascer e ao pôr do sol, nem que seja sob o pretexto da necessidade de defecar na praia (por tradição), ali se juntam grupos de pessoas em animadas conversas (e quem sabe não mais?) por várias horas.Grande parte da população dedica-se no entanto à pequena indústria artesanal e a outras ocupações liberais e informais bem como ao comércio, não deixando de praticar um pouco de agricultura para subsistência, com especial incidência no milho, mapira, mandioca e mexoeira. ---------------------------->>>>>>>>>

Pemba, este pequeno satélite e entreposto swahili de tempos remo­tos, conserva ainda suas antigas tradições e hábitos assimilados das gentes do Tanganica. A preferência em artigos do mercado oriental e a quase generalização da língua swahili, embora misturado com o idioma macua e a língua portuguesa, é também realidade.

O “Sungura”, dança importada da Tanzânia, diverte todos os dias e durante toda a noite a população dos bairros periféricos.

Dessa gente não há quem falte, pois aliado ao divertimento algum namorisco poderá, eventualmente, acontecer.

Os três ou quatro conjuntos musicais que actuam em simultâneo nos principais bairros de caniço expressam-se em língua swahili. Os dançarinos os acompanham.

O "mini na kissikia swahili" (eu compreendo swahili) liga uns e outros numa libertação e fruição de mais um dia passado.

As comunidades de maior influência árabe-swahili, muito dedicadas ao comércio com a Tanzânia, localizam-se em ambas as extremida­des: Maringanha ao Sul e o Paquitequete ao Norte.

Contava há poucos anos um velho auxiliar de faroleiro uma interes­sante e peculiar história sobre a origem do nome Maringanha já que a explicação nos conduz a um facto de que a gente de Maunhane jamais viria a esquecer: trata-se da construção de poços de água, um dos mitos de mau agouro ameaçador de morte a quem o construísse.

O facto deu-se após o ciclone de 1914 quando, já reconstruída a povoação de Maunhane, o faroleiro Heliodoro José Carrilho inaugura os poços (por ele próprio mandados construir) gritando o lema: “Muringana?”, que em língua local significa "estão completos?" ao que a população respondia em uníssono "Ti ringana”, que nada mais é do que a confirmação.

Será que por popularização como indicava a fonte e deturpação da expressão "mu ringana" viria a resultar Maringanha?

As cartas no entanto designam de ponta "Maunhane" à região e não é de admirar já que localmente a expressão significa "no sítio dos macacos" dado que em tempos parece ter sido ali o local por eles preferido.

Ainda hoje muitas vezes se vêem macaquitos a vaguear pela Ma­ringanha saltitando por entre o sombreiro das casuarinas e coqueiros junto ao farol como que apreciando as centenas de mulheres que na vazante avançam pelo mar em busca de marisco, o "caril" diário.

Trata-se principalmente da apanha de certas conchas com carne comestível mas pouco ou nada comercializável por se tratar quase de um dever tradicional de toda a mulher e suas crianças procurar moluscos e pequenos crustáceos tanto para seu sustento como até por simples ocupação do tempo e desporto.

Para além da pesca artesanal a população da Maringanha dedica-se também à pequena agricultura bem como à fermentação alcoólica do caju. Aqui a amêndoa deste fruto é no geral consumida quer verde quer torrada depois de seca ou mesmo, em ambos os casos, também utilizados na culinária.

Na outra extremidade de Pemba encontramos o Paquitequete que apesar de desenvolver um forte comércio swahili alberga por outro lado famosos artesãos e gastrónomos ensinados no Ibo e trazidos para ali aquando da transferência da sede da administração da Com­panhia do Niassa.

Ourives trabalhando a prata das moedas portugesas antigas e o ouro das libras estrelinas que ainda vão aparecendo, arrancado às relíquias de algumas poucas “sinharas” (senhoras) ainda vivas apesar de velhinhas, que em seus quintais confeccionam para venda famosos doces, compotas, diversos bolos doces e salgados bem ainda como achares de variado tipo.

O Paquitequete está quase separado da cidade por uma lângua que seca quando a maré vaza mas repleta de água na enchente e, nessas ocasiões, não falta “negociozinho” aos miúdos das casquinhas ganhan­do algumas coroas aos que desejem encurtar o caminho caso estejam em ambas as extremidades já que a ponte se situa quase no extremo sul deste enorme bairro.

O nome de Paquitequete provém da expressão "pá hitequete” que significa por um lado "no sítio do hitequete" ou melhor uma planta que cresce toda emaranhada muito comum ali, por outro é aplicada à característica do próprio bairro com casitas todas muito juntinhas umas das outras formando um autêntico emaranhado.

Engloba ele junto ao mar as áreas de Cofungo na ponta Mepira, seguindo-se em direcção à ponta Romero as zonas conhecidas por Nazimogi, Paquitequete propriamente dito, Cumissete e Cuparata. Há a acrescentar ainda uma casta de mestiços do Ibo que se isolou um pouco mais para a costa a seguir a lângua, dando origem ao bairro da Cumilamba que galga um pouco a parte da escarpa Leste da cidade de Pemba.

Enquanto que na Maringanha a ponta é alcantilada e orlada por um recife de coral que cobre e descobre em Mepira ela è baixa e arenosa caindo a costa a pique sobre o mar.

Nas regiões centrais da península localizam-se os bairros semi-urbanizados de Ingonane, próximo à ponta Romero assim como o de Natite e Cariacó mais a sul onde vivem principalmente os novos artesãos, o pequeno operariado local e os potenciais produtores e negociantes de aguardente e outras bebidas tradicionais, tais como os fermentados de cereais ou farelos.

Estes bairros desenvolvem-se a partir da ponta Romero que é baixa e também orlada por recife de coral que cobre e descobre. Tem praias arenosas mas as ondas são no geral bastante violentas. A ponta Romero antes da ocupação pêlos portugueses era conhecida pelo nome Miranembo.

A tradição reza que ainda no tempo em que a região era floresta cerrada, albergando grandes manadas de elefantes certo dia enfurecidos avançam em direcção ao mar e o mais velho (o chefe) que seguia à frente não foi capaz de estancar na ponta o que o levou a precipitar-se por sobre as águas e dai engolido pelas ondas. De súbito os outros elefantes param e aterrorizados tomam rumo oposto fazendo uma retirada para o interior sem nunca mais por ali aparecerem.

Ora, localmente a expressão “umuiria” significa engolido e “nembo” o vocábulo elefante, ou seja o lugar onde foi engolido o elefante. Naturalmente, segundo a lenda, as duas expressões ter-se-iam fundido dando origem à palavra “umuirianembo”, posteriormente, “miranembo”.

Entre o Cariacó e a Maringanha encontram-se o Wimbe e o Nanhimbe (actual bairro Eduardo Mondlane) dedicando-se à agricultura de su­bsistência e à fermentação alcoólica do caju.

Já no cimo da colina podem-se ver, do levante ao poente, os bairros de Chuiba ou "Planalto dos Cajueiros", Gingone e Muxara, pratica­mente cobertos de cajueiros, e são os que mais comercializam a amêndoa do caju e se dedicam à fermentação alcoólica da respectiva maçã bem como à pequena agricultura.

O rochoso baixo de Nacole a 1,5 milhas para Sueste da Ponta Mepira, projecta ao longo das suas praias de Chibabuara onde, do ponto mais alto da cidade, a colina se faz cair abruptamente.

Outrora um esconderijo de larápios por possuir densa floresta, hoje a sua população é essencialmente constituída por pescadores que, apesar dos rumores de existência de um polvo gigante ali mesmo na baía, essa gente continua fazendo alguma pescaria sem qualquer receio.

No centro da península onde está instalada a cidade de Pemba, ergue-se a zona de cimento desde a Baixa ou "Cidade Velha" junto à qual foram construídas as primeiras casas de alvenaria por facilidades de acesso ao porto, estancando numa planície provida do melhor parque habitacional.

É também nesta zona onde se encontram o Governo e serviços públicos diversos, combinados com uma cadeia de estabelecimentos comerciais bem como um parque infantil onde funciona também uma creche.

O actual porto e ponte cais de Pemba na baixa estão localizados na região meridional da baía a 5 amarras para Sueste da ponta Mepira, com fundo de lodo. O fundeadouro pode alcançar-se a pouco mais de 80 metros, onde se encontra o molhe cais, dado que os fundos se aproximam bastante da terra.

Existem no porto diversas instalações para armazenamento de cargas e para serviços marítimos e aduaneiros. Está também apetrechado com um sistema para a contenção de combustíveis que, através de uma conduta de cerca de um quilómetro, são despejados para os depósitos da Petromoc próximos à povoação de Chibabuara.

Do Livro "Pemba e sua Gente" de Luis Alvarinho.
Colaboração de Armando Silva-Portugal.

Via: http://www.macua.org/livros/GenteeSociedade.htm Está também no ForEver PEMBA "aqui".


EXTRAS - O FAROL DA MARINGANHA

Pudesse eu ligar para (289)824983 ou ir pessoalmente localizar a Rua Actor Nascimento Fernandes, lá para as bandas de Faro, Algarve, na terra de Camões, encontrar Maria dos Anjos Martins e conversarmos hoje sobre o Farol da Maringanha.

Não é por nada. É que no livro que me ofereceu, com o nome Pemba, de contos lusófonos, em retribuição ao meu “Caso de Montepuez”, ela me pôe muito pensativo quando na página 81 fala do faroleiro que sempre guarnecia aquele farol em tempos de sua juventude.

Apresentando-se com o pseudônimo, Angie Paraízo, a nossa escritora, que é natural de Cabo Delgado, apresenta um faroleiro que ficava horas a fio, sentado nos primeiros degraus do farol esperando ver os tentáculos do polvo gigante que emergia silencioso e rápido do fundo das águas do mar. Passava as tardes à espera do seu único amigo, a sua única visita, apesar de saber que ele só vinha ao pôr-do-sol. O velho faroleiro gretado pelo vento e pelo sol, cofió na cabeça de cabelos brancos, pés descalços, olhar perscrutando o mar até ao limite do horizonte. 

Ás vezes, conforme Angie Paraízo, o polvo surpreendia o coitado do velho faroleiro, elevando os grandes tentáculos acima do nível do mar, deixando-os deslizar pelas paredes escuras do farol para em seguida rodopiar em espiral provocando agitação nas águas. O velho sorria e agradecia. Estamos perante um maringanha morto e monótono.

O que gostaria então de dizer a minha amiga luso-moçambicana, é que no mesmo sítio, estou a dizer, no farol da Maringanha, já não há nada que justifique a solidão de que sofreu o faroleiro. O bairro da Maringanha não tem hipótese de ficar isolado, não há lugar para ser apenas o polvo a brincadeira do faroleiro e não só.Maringanha fica hoje alguns quilómetros mais perto da cidade de Pemba, porque a engenhosidade de mentes particularmente empresariais permitiu que------------------------------------------------>>>>>>>>>>>>>>

o farol seja não só aquele dispositivo sinaleiro, mas também o nome de um complexo turístico-cultural, enfim, lugar para todo o tipo de lazer, que Pemba há muito precisava.

Aliás, não há mato a partir da praia do Wimbe, a pouco e pouco foram aparecendo lugares de restauro e brincadeiras adultas, sendo que a seguir vem a “Aquilla Romana”, depois temos a sempre trabalhadora Célia, o campismo, etç., etç., salta-se um pouco para permitir que um pequeno bosque ainda continue a viver por razões humanas. É que lá está o cemitério dos hindus, é lá onde se queimam, depois do que estamos no complexo “O Farol”.

É Albertino Cuomo, o cabo-verdiano que agora (há duas semanas) fez o destino obrigatório dos que sabem descansar, claro, com certas posses.

Houve tempos em que aos fins-de-semana tínhamos pessoas a irem a Nampula para se deleitarem com os ambientes quentes do “Xitende” ou “Monteiro Splays” ou ainda nas Quintas Nasa, do Galo e muito recentemente no complexo “O Bambo”. Noutros tempos a gente dirigia-se a Montepuez para usufruir do que “Zavala” proporcionava, hoje não.

Pudesse eu convidar a minha amiga Angie Paraízo para, com ela, com a sua idade, ficar pelo menos trinta minutos no “Farol”, depois iríamos pela costa até noutro complexo pertencente a Chabane Combo, só para ver que o espaço está sendo ocupado, por isso a solidão do faroleiro não mais voltará, pelo menos em Maringanha.

PS-Em tempo: Estiveram cá os “Massucos” do Niassa, para confirmarem que são na verdade os mais-mais da atualidade. Há muito que Pemba precisava de espetáculos de luxo, fora da cassete que se traz e se imita burlando deste modo o público que muito respeito merece. Ficou de parabéns Narciso Gabriel e o seu restaurante Wimbe que trouxeram os “Massucos”, agora traga-nos os “Eyuphuros” e verá.

Pedro Nacuo-In Notícias de 27/09/2002-Texto cedido por Anvar e Inez Andrade Paes. 


Blogue ForEver PEMBA
 

 

Quando os Amigos de Pemba são notícia no "The New York Times"

(edição de 23/02/03)

NOTA-Esta transcrição refere-se a trabalho artistico desenvolvido pelo Rui Andrade Paes em Oslo,  Noruega.

Para quem não sabe, Rui Paes ou Rui Andrade Paes é natural de Pemba, filho da  consagrada poetisa Glória de Sant'Anna e do  arquiteto Andrade Paes,  irmão de nossas companheiras do Bar da Tininha (http://br.groups.yahoo.com/group/bardatininha) Andrea Andrade Paes, Inez Andrade Paes, Ingrid A. Paes, além de Afonso A. Paes.

The Monkey House

The singerie in Munkebakken consists of

16 panels painted by Rui Paes .
-Fernando Bengoechea for The New York Times

By MEREDITH ETHERINGTON-SMITH

Until the 17th century, if you saw a monkey decorating the border of a medieval missal or swinging from a branch in a Florentine fresco, he was there to parody the baser side of human nature. Then, in the late 17th century, the artist Jean Berain promoted Sir Monkey from his lowly status. Suddenly he became playful; he dressed in elegant clothes; he discovered a talent for music, juggling, dancing and looking terrific on a ribboned swing.

Berain did rather well with his singeries, as his monkey decorations were termed, being appointed Dessinateur de la Chambre et du Cabinet du Roi by Louis XIV in 1674. Perhaps the masterwork in the style was the little boudoir at the Chateau de Chantilly. Here, the antics of some extremely cheeky monkeys were depicted in a park that bore a close resemblance to Chantilly. Four of these enchanting panels celebrated the four seasons and their typical pastimes, a motif that other chateau owners adopted in their own singeries, which were installed in drawing rooms, libraries and hallways.

But the fashion for singerie was fairly short-lived; by the mid-18th century, shells or rocaille became the mode, and the Rococo movement was born. And so monkey matters rested, give or take a tableau or two, until recently, when the singerie again appeared on fashion's radar thanks to a talented Portuguese trompe l'oeil artist named Rui Paes.

One of Paes's solo commissions (he often works with the muralist Graham Rust) was an entire singerie room for a historic house called Munkebakken, built by the architect Arnstein Arneberg in Lysaker, a 19th-century artists' colony just outside Oslo. The present owners commissioned 16 panels, resulting in a triumph of monkey business. Monkeys walk tightropes in ruffs and frills; they play lutes; they do handstands, balancing parasols and playing the harp upside down. At Munkebakken, Paes has recreated a charming, if quirky, moment in the history of fashionable decoration without it looking like pastiche. Quelle singerie! 

Paes's monkeys play around in ruffs and frills.

 
Retrato de Rui Paes:

Enviados a Génova:
Isabel Lucas (Texto) Rodrigo Cabrita (fotos)

A reserva impede-o de revelar o nome da casa e o dos seus proprietários, mas é entre telas de Rubens, Van Dyck e Bruegel que Rui Paes trabalha.

Madonna escolheu um pintor português para ilustrar o seu último livro para crianças. Pipas de Massa conta a história de um velho rico e infeliz que descobre a alegria da partilha.
 

Um enredo simples a contrastar com o barroco da ilustração assinada por Rui Paes, nome com quem a estrela pop divide o protagonismo desta história traduzida em mais de quarenta línguas, publicada em 110 países e com lançamento mundial agendado para Portugal, no dia 1 de Junho de 2005 (Dia Mundial da Criança).
 
Rui Paes estava em Génova quando foi contactado pela Callaway Editions, a editora dos livros infantis de Madonna.
 
A New York Times Magazine publicara, pouco antes, um artigo sobre uma sala pintada pelo português num castelo da Noruega.
Foi em Fevereiro de 2003.
 
Esse ambiente palaciano seduziu a autora e quatro meses depois Rui Paes interrompia o trabalho que estava a fazer num palácio daquela cidade italiana para se instalar no seu atelier de Londres a tentar dar forma à narrativa e às personagens criadas por Madonna.
 
Com um vasto currículo na área do trompe-l'oeil, parte da vida e da obra de Paes decorre em palácios.
 
Paredes, murais e telas de grandes casas do Egipto, Alemanha, Inglaterra, Líbano, Noruega e, agora, Itália constam de um percurso onde o figurativo vai ganhado cada vez mais força.
 
É a subir a escadaria do Palazzo Reale, em Génova, que este artista, quase um desconhecido em Portugal, confessa o fascínio pelo barroco - e pelas formas antigas de pintar -, manifestado em traços que parecem fora de época ou, antes, desafiar as tendências do tempo actual.
 
Vive e trabalha paredes meias com aquele ambiente, num palácio vizinho construído no início de seiscentos e que guarda uma das maiores e mais importantes colecções privadas de pintura, na Europa. "Estar aqui é uma inspiração muito grande.
 
O barroco é uma das linguagens mais divertidas e cativantes para ser reutilizada.
 
Na pintura mural, é a técnica mais satisfatória.
 
Mas tem de ser muito bem compreendido, já que parece ser muito frívolo. Mas não é. É muito bem enraizado e dá uma grande liberdade", defende, de olhos postos num fresco que decora a Sala dos Espelhos, do Palazzo Reale.
 
A reserva impede-o de revelar o nome da casa e o dos seus proprietários, mas é entre telas de Rubens, Van Dyck e Bruegel que Rui Paes pinta, numa sala que dá para a Via Balbi, uma das artérias mais importantes de Génova, projectada no início do século XVII, quando ali começaram a construir grandes palácios, e que hoje já não tem o brilho desses tempos.
 
Vida palaciana.
 
É nessa rua, bem junto à Piazza dell'Annunziata, que vive desde 2000, numa estada que interrompe sempre que tem de responder a outras solicitações e que deve terminar dentro de três ou quatro meses. "O Van Dyck pintou os marqueses no século XVII e eu, agora, estou a fazer quadros com os empregados", ironiza, ao ser questionado sobre o trabalho que está a fazer. E percebe-se a reserva no sorriso que quer colocar um ponto final sobre o assunto. A mesma que lhe foi pedida quando lhe falaram da hipótese de ilustrar um livro de Madonna. Ficou surpreso com o trabalho, mas o nome não lhe tirou a fala, garante.
 
Mandaram-lhe a história e pôs mãos à obra.
 
Foi cerca de um ano e meio de trabalho feito no campo, perto de Cambridge, e que o ocupou entre dez e doze horas por dia.
Seis meses na concepção e na estruturação, oito meses para a pintura, em aguarela sobre fundo de papel.
 
Tudo somado, foram 70 aguarelas, numa escala entre vinte e quarenta por cento acima do tamanho em que o livro foi impresso.

Em todo o processo, autora e ilustrador falaram duas vezes. "Da primeira vez, ela ligou-me para dizer que estava muito satisfeita com as ilustrações. Mais tarde fui eu que lhe telefonei a pedir desenhos dos filhos para incluir no livro, e ela mandou."
 
As reacções iam-lhe chegando através da editora.
 
No fim, pediu-lhe que fizesse "uma ou duas pequenas" alterações.
 
Do trabalho no castelo norueguês "importou" para o livro a ambiência e os macacos.
 
Isso mesmo. São esses os elementos decorativos mais marcantes, inspirados no Castelo de Chantilly, em Paris.
 
"Nesse trabalho usei uma técnica de chinoiserie do século XVIII, a importação europeia dos elementos decorativos chineses nos grandes ambientes palacianos.
 
Um dos melhores exemplos está em Chantilly.
 
É um grande hall de entrada num castelo em cima do fiorde de Oslo.
 
Embora tivesse sido construído nos anos 20, só um quarto é que era de época.
 
Tudo o resto foi feito com um certo teor revivalista.
 
Sugeri, então, o esquema da chinoiserie, rococó.
 
A sala estava toda dividida em painéis.
 
Fiz 16 painéis com seis metros por um.
 
Usei uma série de elementos decorativos, utilizando macacos vestidos como em Chantilly".
 
Foram os macacos que seduziram Madonna.
 
São os macacos o elemento que percorre todo o livro.
 
"Diverti-me muito com este trabalho.
 
Foi difícil, mas tive toda a atenção, tanto da editora como da própria Madonna", diz em jeito de balanço de uma experiência que gostaria de repetir.
 
Basta que haja convite e empatia com o ambiente da história a ilustrar.
 
Afirma que o facto de se ter iniciado nestas lides com Madonna não o coloca em bicos de pés, mas reconhece a importância que tem para a divulgação da sua obra o facto de o seu nome surgir ao lado do da autora de Material Girl "Inevitavelmente, vai ter um papel determinante."
 
O percurso.
 
A viver em Londres desde 1986, quando, bolseiro da Fundação Gulbenkian, se candidatou ao mestrado de Pintura no Royal College of Art, Rui Paes conta com várias distinções num currículo que oscilou entre o figurativo, o monocromático e de novo o figurativo.

Natural de Pemba, Moçambique, onde nasceu em 1957, filho de um arquitecto e de uma escritora, começou a pintar muito antes de conseguir copiar gravuras de Rafael.
 
Tinha uns sete ou oito anos. "Sempre que me aborrecia com os meus irmãos, refugiava-me com os meus lápis e guaches numa espécie de ilha onde mais ninguém tinha acesso", lembra, sublinhando pormenores da praia de onde saiu com 11 anos para fazer o liceu em Aveiro.
 
Andou entre os dois continentes até entrar para a Faculdade de Belas Artes do Porto, depois de ter hesitado em ir para um curso ligado ao ambiente.
 
O chumbo a Química afastou-o. "Ainda bem", reconhece agora.
 
Terminado o curso de Pintura, em 1981, foi professor no ensino secundário.
 
Paralelamente, participava em exposições e venceu o prémio revelação na Exposição Nacional de Arte Moderna, Arús.
 
Entretanto, concorreu a um lugar no Royal College of Art. Foi aceite. "Nunca tinha pintado tantas horas todos os dias.
 
Deram-me um lugar para pintar e tive de criar a minha própria disciplina."Fazia, então, uma pintura despojada, monocromática.
 
Grandes telas, todas a vermelho.
 
Foi uma fase.
 
O figurativo haveria de voltar em força quando começou a trabalhar com Graham Rust, um dos mestres da ilusão pictórica.
 
Nunca mais abandonaria o trompe-l'oeil, que foi intercalando com as telas.
 
Nunca mais abandonaria, também, Londres.
 
Em Portugal, tem um filho.
 
E trabalhos em várias colecções privadas.
 
Para o ano, talvez haja uma exposição.
 
In "Diário de Notícias"
 
O lançamento mundial de 'Pipas de Massa'

A excepção deve-se ao facto de o ilustrador ser português. O próximo livro de Madonna, Pipas de Massa, vai ser primeiro editado em Portugal e só uma semana depois conhecerá edição mundial. A Dom Quixote, editora em Portugal da série de livros infantis da cantora pop, iniciada em Setembro de 2003 com As Rosas Inglesas, está a preparar um programa especial para o dia 1 de Junho que conta com a participação de Rui Paes, o autor das ilustrações. Além de uma sessão de autógrafos, a actriz Carmen Dolores irá ler a história numa sessão pública em local ainda a anunciar.

Pipas de Massa é o quinto livro infantil assinado por Madonna e, como os anteriores, também neste a cantora/escritora cede os seus direitos à Spirituality for Kids Foundation, uma instituição norte-americana de ensino. Os quatro títulos anteriores venderam, no conjunto, cerca de dois milhões de cópias em todo o mundo, 30 mil dos quais em Portugal. O primeiro, As Rosas Inglesas, foi o que mais vendeu, tendo originado à sua volta um fenómeno de merchandising. De tal forma que tanto os editores (a Callaway) como a autora já pensam na sequela. Assim, é provável que a Pipas de Massa se siga As Rosas Inglesas II.

Em Pipas de Massa, como nos livros anteriores, a moral é universal - a verdadeira felicidade está na partilha -, mas a inspiração é italiana. A começar pelo título Lotsa da Casha, no original. Em português, optou-se por Pipas de Massa, que não transmite a intenção de "italianizar", como no inglês e que pode causar estranheza na leitura. Na tradução assinada, mais uma vez pela dupla familiar Miguel e Susana Serras Pereira, o protagonista, Pipas, aparece com uma pronúncia estranha, que troca os "ss" pelos "ch", numa tentativa de reconstruir o sotaque italiano do inglês de Madonna. Uma estranheza de que fala Rui Paes, o ilustrador, colocando algumas reservas à tradução nacional. "Talvez por ter lido tantas vezes a história em inglês", justifica.

Itália - país onde Madonna tem raízes familiares - está também muito presente na ilustração. A pedido da própria, como faz questão de salientar Rui Paes, que diz ter-se inspirado na cidade Siena e na arquitectura de Génova para construir os ambientes onde decorrem as aventuras do tão amargo, quanto rico, Pipas. Até agora Rui Paes ilustrara apenas um livro de contos assinado pela mãe, a escritora Glória de Santana. Tinha, então, 18 anos.

Entretanto, em matéria de ilustração limitara-se aos palcos, num trabalho de cenografia que não considera muito distante, na forma, da tarefa de dar imagem às palavras de um livro. Num e noutro caso é preciso criar ilusão.

O interesse desta série de livros de Madonna está na assinatura, mas, sobretudo, na grande qualidade das ilustrações que os acompanham. São elas que trazem um enorme valor acrescentado a narrativas com pouco de original. São elas, ainda, que fazem destes exemplares objectos de culto para quem valoriza a imagem. Madonna sabe disso. E os seus editores também.


In"" Diário de Notícias" de  10 de Abril de 2005

VIAJANDO A PEMBA COM ARMANDO LARA E NINA NOROTAM

Armando e Nina Norotam: dois jovens simpáticos, apaixonados pela vida e por viagens. Ele, espanhol. Ela, moçambicana genuína e nascida na nossa cidade de Porto Amélia, hoje denominada Pemba. Residem atualmente em Espanha. Mas Pemba está sempre e preferencialmente em seu roteiro. De sua última estadia em Pemba no ano de 2000, quiseram brindar-nos com o álbum aqui reproduzido.  É uma viagem no tempo e um despertar de emoções.  Porque através da objetiva do Armando redescobrimos  a Pemba de nossas lembranças, plena de praias sem igual e cercada por um mar imenso e azul, igual ao mar de nossas saudades. Obrigado Nina ! Obrigado Armando ! Todos merecemos apreciar estas fotos e viajar no imaginário até Pemba.

 

© - Setembro 2000 por Jaime Luis Gabão  Home Page Pemba e Régua - Última alteração: 16/05/2009 00:39:40