PORTO AMÉLIA «» PEMBA  - IMAGENS 3

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João Sabadino Portugal
Mascote ilegal

Fora da lei...

Nasceu em 1962.
O dia e o mês ninguém sabe.
Nem o nome original.
Aos cinco anos roubaram-lhe o colo materno.
Dois anos depois veio para Portugal com um grupo de Fuzileiros de quem era mascote.
Anos mais tarde descobriu que estava ilegal.


- MOÇAMBIQUE, JUNHO DE 1967

Um Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses veste o camuflado e arranca para a primeira operação na zona de Mocimboa da Praia, Cabo Delgado. Devidamente artilhados, os soldados entranham-se mato adentro à procura de presença inimiga.

Alguns passos adiante deparam-se com um grupo de mulheres indígenas. Seguem-lhes o rasto, discretamente, até à aldeia mais próxima. Logo que se apercebem da chegada de militares, os locais começam a fugir, apavorados. Procuram por um abrigo, arranjam uma forma de escapar à chacina.

Enquanto isso, um dos fuzileiros tenta impedir a sua fuga com disparos contínuos e ensurdecedores de metralhadora. Findo o carregador faz-se silêncio, e um manto de capim ruma ao céu, deixando a descoberto uma aldeia sem vivalma. Deserta. Por instantes, pensou-se que todos estivessem mortos. Puro engano. Um buraco estrategicamente cavado na terra serviu-lhes de escudo.

Escapam à morte, mas não de serem capturados e, posteriormente, entregues ao cuidado dos serviços competentes, em Porto Amélia (Pemba). Durante o regresso, os militares aproveitam uma curta paragem para se refrescarem no mar. Os indígenas, que nunca tinham vislumbrado tamanha imensidão de água ficam perplexos. Eufóricos. Durante breves momentos a aflição cede lugar à descompressão. A uma felicidade que parece não ter fim. O brilho espelhado no olhar de uma das crianças, que corre despreocupadamente pelo areal, desperta a atenção do grupo de fuzileiros. E como naquela época era comum os Destacamentos terem uma mascote, um dos militares , por impulso, coloca a hipótese de o adoptar. Assim foi.

João Sabadino Portugal. Foi desta forma que se passou a chamar o petiz. João, porque era dia 24, o mesmo em que se comemora o S. João – passando a ser também esse o dia em que comemora o seu aniversário. Sabadino, porque era sábado. Portugal, porque, afinal, tratava-se de um Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses. Com a autorização da mãe, o rapaz foi viver para o quartel dos soldados.

O petiz tinha a própria camarata, o próprio armário e uma farda igual à dos seus novos compinchas. Durante dois anos foi a coqueluche dos militares. Em 1969, quando a Comissão chegou ao fim, aos 70 oficiais que se preparavam para regressar a Portugal, juntou-se o pequeno João, à responsabilidade de um Oficial Imediato. Tinha sete anos. E uma vida pela frente. Agora, em Portugal.

João guarda poucas recordações desses tempos. "Lembro-me do quartel, de um macaco, de quem tinha muito medo, mas que estava sempre a atiçar, recordo-me de andar vestido com uma farda que me fazia sentir muito importante, e de ser bem tratado por todos eles", confidencia. "Os maus tratos vieram depois ", deixa escapar acompanhando as palavras com um ligeiro abanar de cabeça. Prenúncio de um sentimento mal resolvido.

CASCAIS, JUNHO DE 1969


Meia dúzia de dias após a chegada a Portugal, João foi entregue aos cuidados da mãe do Oficial Imediato que o adoptou: "Foi ela que me criou e educou, a ele só via ao fim-de-semana", começa por contar. "Mas ela era muito mazinha comigo", acrescenta, sem disfarçar um nervoso miudinho, que se acentua quando recorda a dura vida que levou ainda muito novo. "Sabem o que é ter que aspirar, lavar loiça, coisas que não me competiam Era como se eu lhes tivesse que dar algo em troca da educação, da comida Era um escravo", conclui, inconformado.

A gota de água foi quando, já após a morte da senhora, João levou uma violenta tareia de mangueira do pai adoptivo que lhe deixou marcas que ficarão para sempre gravadas na cabeça. E no corpo. Sempre que se vê ao espelho, a antiga mascote tem de enfrentar duas enormes cicatrizes nas costas que lhe trazem à memória lembranças que luta para esquecer. "É verdade que fiz uma coisa estúpida na escola, algo que agora não posso estar aqui a dizer, mas ", começa por revelar. " Só sei que foi a primeira e a última vez que me bateram assim".

Revoltado, João fugiu de casa. Mas logo que o encontrou, e para que o episódio não se repetisse, o Oficial decidiu mandá-lo para casa de familiares, nos Açores. "Fui para lá estudar e trabalhar na pesca. Mas se nós saíamos para o trabalho à noite, como é que eu ia conseguir acordar de manhã para ir para a escola!?", interroga.

Com a ajuda dos companheiros de pesca conseguiu arranjar dinheiro para comprar um bilhete de regresso ao Continente. Apanhou o primeiro avião e mal desembarcou em Lisboa foi bater a casa do pai adoptivo. Este, sem dó nem piedade, virou-lhe as costas.

João fez-se à estrada, sozinho, com vinte escudos no bolso. "Estava com uma raiva tão grande dele que comecei a andar, a andar. Fui de Carcavelos até Lisboa, precisava de gastar toda a energia que tinha no corpo. Cheguei à Rua das Flores e parei porque estava cansado. Depois, passei a viver ali. Batia à porta de casa das pessoas para pedir comida. Dormia perto dos bombeiros, no jardim ou em carros abandonados", recorda sobre os sete anos como sem-abrigo.

LISBOA, DE 1979 EM DIANTE

Durante esses tempos, João Sabadino Portugal fez amizades de ocasião, outras que, apesar das curvas e contracurvas da vida, mantém. Tentou o amor. "Éramos amigos, depois apaixonámo-nos, mas aquilo deu azar." Arranjou biscates em troca de comida. E, como a vida não lhe corria de feição, deixou-se enveredar por caminhos mais sinuosos. Meteu-se na droga. "Fumei uns charros, mais nada." Esteve preso. "Eu não sabia para o que é que ia, fui com eles, e olha, assaltámos um café." Conseguiu sobreviver a tudo.

No meio do turbilhão de emoções, certo dia, para piorar as coisas, João perdeu o Bilhete de Identidade. Naturalmente, tratou rapidamente de obter a segunda via. "Fui a Alvaiázere, onde estava registado, buscar a minha certidão de nascimento, preenchi a papelada, meti lá o dedo para impressão digital e disseram-me para ir levantá-lo dali a uma semana."

Quando lá voltou disseram-lhe que tinha de se dirigir aos registos centrais. Foi o que fez. Preencheu mais uma série de papéis, sem perceber muito bem para o que é que rabiscava, e ficou a saber que para receber o novo B.I. tinha que arranjar comprovativos dos locais onde tinha vivido e trabalhado nos últimos anos. Uma missão quase impossível para alguém com uma vida desregrada. "Tentei explicar-lhes, mas parece que ninguém me ouviu".

Entretanto, passaram-se vinte e sete anos. João Sabadino Portugal continua fora da lei.

Todos estes anos, trabalhou esporadicamente através de empresas de cedência de pessoal, fez os devidos descontos para a Segurança Social, uma vez que tem cartão de contribuinte. No que respeita a saúde, nunca necessitou de cuidados médicos que justificassem a apresentação de um cartão de identificação. E a polícia nunca o abordou. É caso para dizer que, no meio de tanto azar, tem tido alguma sorte.

Mas esta não é uma situação confortável. "Preocupa-me muito, se um dia quero ir a algum lado, dar uma volta maior, não posso. Se eu tenho registo, para quê tudo isto!? Estou baralhado, estou baralhado", diz repetidamente, em alto e bom som, como quem se esforça por se fazer ouvir. Mas a burocracia tem orelhas moucas.

No seu caso, a dificuldade na obtenção de um novo B.I. prende-se com o Decreto Lei 308-A/75 de 24 o Junho, que regulamenta a legalização dos oriundos das ex-colónias. Ou seja: se o João Sabadino tivesse chegado a Lisboa antes de 25 de Abril de 1969 não haveria problema, mas como só chegou em Junho não pode ser considerado português, sendo que também não é moçambicano. O problema só foi detectado porque, entretanto, perdeu o Bilhete de Identidade. “Parece que antes de sair a dita lei davam B.I. a todos, mas depois, para se nacionalizarem, teriam que preencher determinados requisitos, como casar com um portuguêsa, estar cá há mais de cinco anos...”, explica.

SEIXAL, JULHO DE 2005

Quis o destino que em Maio deste ano João Sabadino Portugal se cruzasse com um dos fuzileiros que o trouxeram para a então Metrópole. Há trinta anos que João Serra o procurava. "Após o regresso de Moçambique, ainda mantivemos o contacto. Tinha uma banda de música, os 'The Tigers', e costumava ir buscá-lo aos fins-de-semana para participar nos espectáculos."

Mas a determinada altura, a coisa mudou de figura. "Um dia liguei para casa da senhora que tomava conta dele e ela disse que eu só estava a prejudicá-lo, a desencaminhá-lo. Então deixei de o fazer", revela João Serra, que, a partir daí, perdeu o rasto ao pequeno João. Nunca o esqueceu.

Anos depois, o ex-fuzileiro iniciou uma busca incansável pelo menino traquina que fez as delícias do Destacamento de Fuzileiros. "É incrível ter sido tão difícil dar com ele. Afinal, andou todo este tempo por Lisboa", reflecte João Serra que não descansou enquanto não soube do paradeiro da 'pequena mascote'. "Abordei pessoas na rua, procurei em circos, andei por conservatórias. Ele era como se fosse um filho para mim. Nunca perdi a esperança."

Esperança é a palavra que melhor descreve aquilo que João Sabadino Portugal voltou a sentir depois de reencontrar João Serra. Já não se recordava dele, mas assim que soube de quem se tratava foi incapaz de conter as lágrimas. "Era como se estivesse em frente a alguém da minha família", explica. Após o encontro com o velho militar, a vida de João Sabadino Portugal deu uma volta de 180 graus. Foi viver para a outra margem do rio Tejo, arranjou um novo trabalho e até fez novas amizades. "Estava cansado. Queria um futuro melhor. Tinha lá pessoas de quem gostava, mas nem sequer pensei duas vezes quando ele me fez o convite. Precisava de sair dali, tinha que fazer alguma coisa para fugir daquele ambiente", explica a antiga mascote.

Agora, a prioridade máxima de João Serra é ver a situação deste homem legalizada – a última tentativa para resolver esta “novela de difícil solução”, como lhe chama, foi redigir uma carta ao cuidado do Ministério da Administração Interna – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Até à data, ainda não obteve qualquer resposta.

Por seu lado, João Sabadino Portugal vive a aguardar por dias mais felizes. Para contrariar os ponteiros do relógio, quando não está a trabalhar – e para não pensar muito –, este homem, pouco sociável, fechado, aproveita o difícil passar das horas para ler e ver televisão. "Leio tudo o que me passam para a mão. Na televisão, gosto de ver documentários, filmes e futebol, pelo menos quando é o meu Benfica", conta, folheando nervosamente o 'Baudolino' de Umberto Eco. "Já o li duas vezes, foi o meu afilhado – filho da mulher com quem vivi – que me ofereceu", diz, cabisbaixo.

Para João Sabadino Portugal – assim como para muitos de nós, a ficção é a melhor forma de fugir a uma triste realidade.

HÁ VIDA DEPOIS DO SOFRIMENTO

João Sabadino Portugal está a viver uma segunda vida. Passado o pesadelo reaprende a sorrir. E o culpado por esta metamorfose é João Serra. O antigo soldado do Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses em Mocimboa da Praia deu-lhe a mão que precisava para tentar dar um novo rumo à sua vida. É um esforço desmedido, uma luta de todos os dias. Mas ele não desiste, apesar de saber que a caminhada não será fácil.

João Serra tem feito tudo o que está ao seu alcance para que este homem consiga reencontrar a felicidade. Desde casa, a trabalho, o ex-fuzileiro tem-lhe proporcionado momentos únicos em família. Momentos que nunca teve, uma família que nunca teve. Aos fins-de-semana, João Serra leva a antiga mascote para sua casa, junto da mulher, filhos e amigos. Juntos passam agradáveis momentos de convívio. “Acho que lhe devemos isso, quando o trouxemos de Moçambique, ele era como um filho para todos nós”,sublinha. Dito isto conclui: ”Ao longo de todos estes anos, nunca o esqueci, apesar do afastamento. Agora, sinto que tenho que fazer algo por ele, e faço-o de boa vontade.”

EM BUSCA DA FAMÍLIA PERDIDA

O reencontro com João Serra trouxe a João Sabadino Portugal nova luz. A antiga mascote descobriu que, ao contrário do que sempre lhe foi dito, afinal a mãe pode estar viva. "Achei que era impossível. Sempre me disseram que a minha família tinha morrido", conta,emocionado. E confidencia que apesar de ter acreditado nessa realidade, nem sempre a aceitou. “Houve alturas em que chorava pelos cantos, sentia-me sozinho, sentia a falta de uma mãe", acrescenta.

Encontrá-la é agora a sua prioridade.

O seu grande sonho. "Tirava-me este peso todo que tenho cá dentro, esta mágoa. Seria uma alegria." Com o auxílio de João Serra, até já enviou um email para a televisão de Nampula a expor a situação. Enquanto não há novidades, contempla a mãe, com saudade, através da fotografia que registou o momento da despedida em Moçambique. A imagem foi-lhe oferecida por João Serra e agora vive numa moldura pregada na parede do seu novo quarto.

E-MAIL PARA A TV DE NAMPULA

Data: Quinta-feira, 30 de Junho de 2005

Para: tvmnampula@teledata.mz

Assunto: PROCURA-SE FAMILIARES

Ex.mos Senhores,

Peço a vossa ajuda com o objectivo de João Sabadino Portugal, hoje com 43 anos, saber se tem família em Moçambique. Em 1968, foi adoptado por uma unidade militar portuguesa, que o trouxe para Portugal em Junho de 1969. Até ao momento, desconhecia a possibilidade de existência de familiares, devido a informações deturpadas que lhe foram transmitidas. Agora, foi confrontado com fotografias que lhe foram mostradas por um antigo militar da unidade. A sua família vivia na zona de Mocimboa da Praia e pensa-se que mais tarde se deslocaram para Porto Amélia.

Agradecendo a atenção dispensada para esta acção humanitária, apresento os meus melhores cumprimentos, João Serra.

MOÇAMBIQUE - DATAS COM HISTÓRIA

- 25 de Setembro de 64 Início, em Mueda, da luta de libertação nacional.

- 25 de Abril de 74 golpe militar em Portugal abre caminho para a independência do território.

- 25 de Junho de 75 é proclamada a independência. Samora Machel torna-se no primeiro presidente do país.

Se tiver informações que possam ajudar este cidadão contacte:

João Serra, antigo fuzileiro

Telemóvel: 93 51 00 952

E-mail: joaoserra@iol.pt


(Colaboração de Tó Coelho)

Dois comentários:

Segunda-feira, 12 Setembro

- benfirox7
Boa Sorte na busca dos familiares.
O que aconteceu a esta pessoa poderia ter acontecido a qualquer um, e caberia a um governo sério, corrigir os erros da guerra como este.
Milhares morreram, milhares ficaram com marcas para toda a vida, mas estes senhores saídos das universidades directamente para a rua sem experiência de vida alguma, continuam a governar como se nada tivesse acontecido.

Domingo, 11 Setembro

- Filomena
Louvo a atitude do ex-fuzileiro João Serra, felizmente ainda se encontram almas boas, mas eu gostava muito que tivessem mencionado o nome de quem tão mal tratou a mascote da companhia, possivelmente um nome sonante da nossa sociedade.

PORTO AMÉLIA, ANTES DA INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE, TEVE SUA RAINHA DE BELEZA COM DESTAQUE ALÉM FRONTEIRAS! SEU NOME - IRÍS MARIA. 

FOTO DO BAR DA TININHA (ÁLBUM DE PAULA ELISEU)

Atravesso o mar sempre azul...e, lá mais ao norte de Moçambique, na costa oriental da África da esperança, deixando para tráz a neblina das madrugadas do tempo, vou redescobrindo os contornos sensuais da musa da saudade e das eternas recordações de minha adolescência...

J.L.G.-Brasil-Agosto/2002

 

Encontrei na net...Falando de Macuas!

 A CULTURA MACUA 

Procurar a verdadeira história e espírito africano implica recorrer a toda a herança de conhecimentos que, ao longo dos tempos, foram transmitidos de geração em geração, do mais velho ao mais novo, do narrador ao ouvinte. 
Trata-se da própria tradição oral que, através de cantos, danças, lendas, mitos, contos, provérbios, rituais e enigmas, transmite o próprio conhecimento e a escola da vida. A tradição oral constitui, por isso, todo um património que faz parte de uma cultura viva. E só conhecendo as suas raízes culturais e civilizacionais, é possível a um povo identificar-se como Povo.

Porquê  "Macua" ?

Era vista como pessoa que ocultava aos outros tudo o que se passava no seu lar ou na sua comunidade. A própria criança era ensinada a manter segredo (OKUA) perante as perguntas dos curiosos. A ideia generalizou-se e, ao longo do tempo, os outros povos começaram a tratar este povo por MAKUA,  o povo dos segredos. O povo macua vive numa área de 300.000 km, limitada a norte pelo rio Rovuma(província de Cabo Delgado), a oeste pelo rio Lugenda (província do Niassa)a sul pelo rio Licungo (província da Zambézia) e a leste pelo Oceano Índico. Encontra-se ainda na Tanzânia e no Malawi – devido às migrações do século XIX – e em Madagáscar, nas Ilhas Seychelles e Maurícias – devido ao comércio de escravos ocorrido nos séculos XVIII e XIX.

Constitui 35,6% da população de Moçambique, sendo o grupo étnico mais numeroso do país: cerca de 3.500 habitantes.

Foi inicialmente um povo nómada, mas acabou por fixar-se nas zonas mais férteis e nas margens dos rios do território. Assim, a sua economia esteve sempre dependente, sobretudo, da agricultura, pastorícia e pesca.

A base da organização política e social dos macuas assenta nas chamadas linhagens ou segmentos clânicos. Cada unidade uterina (ERUKULU), que vive num lar (ETTOKO), pertence a um determinado grupo de unidades uterinas (NLOKO) que partilham o mesmo território (NTTETHE). 

Cada unidade tem um antepassado fundador (NIKHUTU) e um nome de linhagem (NIHIMO). A autoridade familiar cabe ao tio materno (ATATA) que, com outros tios maternos, depende de um decano (NIHUMO). 

A autoridade política e social depende de um chefe, o chamado régulo (MWENE). A seu lado, encontra-se a rainha, mãe das mães (APWIYAMWENE).

Agradecemos a: http://www.maputohoje.co.mz/cultura/povo-macua.html

Provérbios Macuas

O povo macua é uma tribo bantu, do norte de Moçambique, cuja população está em torno de três milhões de pessoas. Sua cultura manifesta-se particularmente nos seguintes aspectos: língua, cultura literária, contos, advinhas, provérbios e danças. Alexandre Valente de Matos passou mais de 30 anos entre os macuas e, após recolher mais de mil provérbios, compilou a metade, importando-se em ventilar o sentido autêntico de cada um. Estes adágios englobam a sabedoria do povo e deixam evidente a fonte de sua vasta riqueza cultural, intelectual e moral. Matos, depois de estudar cientificamente os provérbios macuas, acredita que é importante fazer-se justiça com este povo. “Quando, agora, se atenta ponderadamente a que todo este código de máximas luminosas, cunhadas em linguagem selecta, lacónica e filosófica, pertence a um povo imenso que até há bem pouco tempo era tido na conta de atrasado e selvagem, no conceito de europeus responsáveis, quanto não devemos penitenciar-nos por não nos termos debruçado a sério, desde o princípio, sobre o estudo da formosa alma africana! 

 Os aforismos macuas, na sua faceta cultural, fazem parte do chamado patrimônio comum a toda a humanidade, encerrando normas de moralidade e de guia seguro para a vida prática, que nos maravilham e enchem de espanto. Muitas vezes, em companhia dos meus experientes interlocutores ou a sós comigo, sorria de íntima felicidade ao pensar na opulência de conceitos belos e profundos deste tesouro escondido no campo do pai de família... [...] Em busca de uma forma mais correcta de expressar a verdade, direi que no corpo destes provérbios se reflete vivamente, como em filmado documentário paisagístico, toda a vida do povo, deixando descobrir as suas fontes inspiradoras: crenças, acontecimentos, histórias reais, fábulas, ditos lacônicos e elegantes, hábitos dos homens e dos animais e, principalmente, a observação atenta até aos últimos pormenores dos caprichosos segredos da Natureza circundante.” 

 Cada povo tem sua forma de expressar seus valores e, para entendê-los, nada melhor que se portar  Em Roma como os romanos. Os provérbios macuas são caracterizados por certa penumbra de mistério, a sua expressão processa-se, algumas vezes, por linguagem de recorte difícil; ditos concisos lavrados por cinzel obscuro em termos obsoletos e com omissões flagrantes, cujo sentido nem o jovem nem os leigos menos versados na língua conseguem captar. É possível notar que a sua grande maioria tem uma formulação alegórica, fazendo-nos reportar do sentido literal para o metafórico quando procuramos interpretá-los. Assim, cada provérbio macua “É sempre o mistério ou enigma, cobrindo ciosamente com o véu espesso, a olhos estranhos, o oráculo riquíssimo das vozes sapienciais de um povo...” “Além de tudo o mais, os provérbios macuas condensam toda a filosofia de um povo – filosofia esta que se patenteia exuberante em princípios, ditames, normas e axiomas por que se rege o seu direito consuetudinário.” 

 Em outro ensaio (Lacaz-Ruiz, 1998), dissemos que “Dentre os provérbios de origem africana, alguns podem confirmar a influência no estabelecimento de valores e normas, bem como da sua possível aplicação no foro jurídico: Mwana mukuru na ithe ni hamwe (O filho mais velho e o pai são uma coisa só - kikuyo); Mwana wa mberi (O filho primogênito é toda minha alegria - kikuyo); Kwa mwendwa gutiri kirima (No caminho para a casa do amado não se encontram montanhas - kikuyo); Heri kufa macho kuliko kufa moyo (É melhor perder a vista que a alma - kiswahili); Choru ndeilenuragha ni luembe Twake (Ao elefante, os marfins não lhe pesam - taita); Omwamwa salia namakosa tawe (Mais vale a mensagem que o mensageiro - luhya). Ainda sobre provérbios de origem africana, dentro do conceito lohmanniano (Fujikura & Meidani, 1995) de sistema língua - pensamento, Lauand (1994b) analisa a universalidade filosófico-teológica dos provérbios.” Também assim são os macuas. Segundo Matos (1982) “Em muitos passos da sua vida, os Macuas fazem uso dos provérbios, reforçando a atitudes e posições, quer estas se firmem em preceitos de correcção e gravidade, quer derivem para o cómico ou para grosseria picaresca. [...] Mas o forte do seu emprego, o lugar onde se obtém o seu efeito mais retumbante, ocorre nas sessões de julgamento dos milandos (litígios) no parrô (tribunal) do régulo. Quando na ventilação de um milando este atingiu uma fase de beco sem saída, se uma das partes litigantes citar um provérbio, com propriedade e acerto, a favor da sua causa, é como se acendesse uma luz na treva ou se rasgasse uma picada através da selva densa, pois que tem a causa ganha, pela certa. Os aforismos têm, pois, entrada livre no tribunal do régulo como normas preceptivas ou vindicativas do direito e da justiça, e é à luz da sua doutrina que as contendas e demandas são deslindadas e solucionadas. Muitas vezes, é o próprio régulo, na sua qualidade de juiz, que encerra a audiência ou julgamento com a citação de conceituoso rifão.” O missionário Matos diz ainda que “Como reverso da medalha, toparemos outros, cujo papel é dar combate à preguiça, à ganância e ambições desmedidas, ao orgulho e soberba, à fanfarronice, à intriga, ao roubo, à fornicação, à desconfiança, à avareza, aos maus hábitos, à negligência, à ingratidão, à vergonha, à mentira, à maledicência, à vilania, à inveja – a terrível nrima, fonte de males imensos no seio das famílias africanas...”

Do link de Rogério Lacaz Ruiz  Adilson José Mangetti
Aluno especial da Pós-Graduação Fac. de Zoo
tecnia e Eng. de Alimentos USP – Pirassununga
Av. Duque de Caxias Norte, 225 13630-970
Pirassununga - SP- Brasil
: ®Educação e saúde nos provérbios macuas¬


A Simbologia da Peneira na Cultura Macua        
(Adaptação de textos de Pedro Saleiro, UCM, e Vítor Terra, UP)

Na cultura macua, alguns objectos, para além do seu carácter utilitário, assumem valores simbólicos que devem ser dominados por homens e mulheres, sendo os ritos de iniciação o momento privilegiado para essa aprendizagem. A peneira constitui um bom exemplo da riqueza simbólica que esta cultura encerra e que importa observar.

A cultura macua é ainda pouco conhecida e, no entanto, apresenta-se como bastante rica em termos da simbologia atribuída a muitos objectos diários. Neste trabalho quero dar o meu contributo para o conhecimentos de alguns dos símbolos da peneira, a partir do que escutei e da realidade dos factos conhecidos e observados nos ritos de iniciação. Não será, por isso, um trabalho exaustivo, mas um levantamento dos principais aspectos.

A peneira, denominada em macua ethekwa, é um utensílio feito de tiras de bambu colhido nos baixios. As canas são expostas ao sol, para secar, e dela são tiradas tiras, raspadas e alisadas nos nós, cortadas em função do tamanho que o artesão quiser. Começa-se por entrelaçar o fundo da peneira, terminando por fechá-lo com um arco de um pau especial, denominado muyepe, bem raspado. Em seguida, cose-se com um tipo de arbusto chamado mutho ou hururi. 

A peneira é utilizada para vários fins, particularmente pela dona de casa. Ela serve para transportar, armazenar e conservar produtos agrícolas, frutos silvestres e outros alimentos. O nome vem, porém, da sua função de separar os grãos (que ficam nos bordos) da farinha já moída (que converge para o centro) de cereais como arroz, milho, mapira e mandioca.

São, no entanto, sobretudo os usos e valores simbólicos que atribuem à peneira o lugar de relevo que ela ocupa na nossa cultura. Na cultura macua, a peneira simboliza, antes de mais, estabilidade no lar. Toda a casa tem peneira. Sem ela, um lar torna-se dependente de outro, acreditando-se que a mulher passa, por isso, a estar dependente da vizinha. Lar e mulher estão pois muito ligados à peneira, que simboliza início da vida, ritos de iniciação, o centro da terra. Alguns dizem ainda que a peneira simbolizava aves de rapina, como abutres, milhafres e outras.

Nos ritos de iniciação masculinos, todos os rapazes aprendem a fazer uma peneira, o que revela o seu papel central na estabilidade futura do seu lar. Este aconselhamento, olaquiwa, ensina os rapazes a colocar as primeiras tiras do meio do fundo da peneira, chamado "o centro da terra". no final dos ritos, a peneira também está presente - no final da instrução, o mestre (nakano - conselheiro, em macua), coloca na peneira uma variedade de cereais, coloca-a na cabeça e começa a cantar, andando, seguido pelos rapazes, até a farinha desaparecer, o que marca o fim da cerimónia.

Nos ritos femininos, é ensinada a utilização da peneira como sinalização. Em vez de comunicarem verbalmente ao marido o seu período menstrual e a sua indisponibilidade, a mulher deve pegar a peneira e tapar um dos cântaros e atravessar por cima o remo (pau que amassa a caracata (farinha de mandioca. Se iniciados, os maridos logo entendem. Uma determinada colocação da peneira em casa pode, ao contrário, simbolizar a disponibilidade sexual. 

Como iniciação à vida, o papel da peneira é também complexo. No interior, quando uma criança tem cerca de 30 dias de vida, é realizada a wakulelia muana. Trata-se de dar banho á criança com medicamentos tradicionais, para ela poder sair de casa protegida. Depois desta cerimónia, o recém-nascido é colocado na peneira e lançado aos quatro pontos cardeais, autorizando-o, assim, a casar em qualquer dessas direcções. No litoral, a criança é posta na peneira ao sétimo dia e passada três vezes das mãos de uma pessoa dentro de casa para outra fora de casa e vice-versa. Depois de um banho de água misturada com medicamentos tradicionais, preparados no pilão, a criança está imunizada contra todos os espíritos.

Se uma criança se atrasa nos primeiros passos, os pais solicitam ajuda ao cunhado, napwera (que significa aquele com quem o pai brinca). Este coloca a criança numa peneira e arrasta-a, dando voltas pela casa. Quando pára, dirige-lhe alguns nomes. Passados alguns dias, a criança começará infalivelmente a andar, com a pressão do movimento simbolizado pela peneira. Se aparece ligada à vida, também está presente na morte, pois é da tradição que seja usada a peneira quer para abrir a cova da sepultura, quer para lançar a terra que a tapará.

Os rituais de magia são outro dos campos em que está presente a peneira. Quando a mulher abandona o lar, os curandeiros oferecem medicamentos tradicionais ao marido, sivela (que significa gostar), que este deve colocar na peneira, processo que será repetido por três dias. No fim destes, o coração dela começa a palpitar duma forma anormal e surge o desejo de voltar a casa. É por tudo isto que o padrinho nunca se esquece de avisar o seu afilhado quando este prepara a sua vida de casado: "afilhado, não fez nada ainda, pois falta peneira".

A simbologia é, pois, para nós bem diferente da da mentalidade ocidental, que concebe a peneira como a separação da fina flor, através de malhas cada vez mais apertadas, ideia aplicável às relações sociais ou às actividades pessoais.

Do site: http://www.instituto-camoes.pt/iniciativas/arquivo/boltclpnampula6.htm

Texto enviado por Armando Silva - Lisboa

  Veja alguns dos frequentadores do Bar da Tininha em Pemba-hoje denominado Mar e Sol (Fotos do Álbum de Américo Baixinho).

Provérbios Macuas

Colaboração de Elsa Anjos baseada na pesquisa e trabalho do Padre Alexandre Valente de Matos, Missionário durante 30 anos no norte de Moçambique.


  • AJUDA MÚTUA

    1 - OHIYA MVITHE, WIWANANA -
    DEIXAR RESTOS DE COMIDA NO PRATO É FRUTO DE MÚTUO ACORDO DOS COMENSAIs.
    (QUANDO NUMA FAMILIA AS VONTADES SÃO CONCORDES E UNIDAS HÁ HARMONIA, PAZ E FELICIDADE. PORTANTO TUDO ISTO PARA SE CHEGAR À CONCLUSÃO DE QUE  A UNIão FAZ A FORÇA).


    2 - ASINÀMUKUTTU KHANIMANANA MAKUKHU -
    AS MULHERES QUE TÊM FILHOS PEQUENINOS NÃO SE RECUSAM ENTRE SI AS FOLHAS DE PLANTAS COM QUE LIMPAM O CÓCÓ AOS MESMOS.
    (NAS OCASIÕES É QUE SE CONHECEM OS AMIGOS. AMIGO QUE NÃO PRESTA E FACA QUE NÃO CORTA, QUE SE PERCAM POUCO IMPORTA).


    3 - OPHWANYA ONOPHWANYIHANIWA -
    O POSSUIR BENS DE FORTUNA É FRUTO DO CONTRIBUTO DOS OUTROS.
    (UMA MÃO LAVA A OUTRA E AMBAS O ROSTO).


    4 - OKHALA ONOKHALIKANIWA -
    VIVER É AJUDARMO-NOS UNS AOS OUTROS A VIVER.
    (NOS TRABALHOS SE RECONHECEM OS AMIGOS, OU QUEM TEM AMIGOS NÃO MORRE NA CADEIA).


    5 - KÀKUVELE ,MYUPA SIMMALENE -
    SE ALGEM GRITA "VINDE DEPRESSA EM MEU AUXÍLIO" É PORQUE SE ACABARAM AS FLECHAS OU AZAGAIAS.
    (AMIGOS, RETESEMOS OS BRAÇOS NUM MAIOR ESFORÇO, PORQUANTO SE O DONO DA MACHAMBA NOS CONVIDOU, É PORQUE TEM VERDADEIRA PRECISÃO DO CONTRIBUTO DAS NOSSAS ENXADAS).


    6 - MÒNO MMOSÁ KHULIPALE -
    UM BRAÇO SÓ NÃO TEM FORÇA.
    (EU NÃO TENHO RAZÃO NO QUE DIGO, PORQUE ESTOU SOZINHO.SE EU TIVESSE TESTEMUNHAS, SEM DUVIDA OUTRO DEVERIA SER O DESFECHO DO MILANDO...)


    7 - MUNAKÉRELA OWELÉLELIWA, KIHIKHANLAKA NI MUTTHÚ OKÀKIHA -
    FAZEIS-ME ISTO PORQUE  ME ENCONTRO COMO O PEIXE FORA DE AGUA, JÁ QUE NÃO TENHO NINGUEM PARA ME DEFENDER.
    (QUEM NÃO TEM PADRINHOS MORRE MOURO. COMO, PORÉM, NÃO DISPOE DE MEIOS, NEM TÃO-POUCO TEM TIOS OU OUTROS FAMILIARES QUE A AJUDEM A SALDAR O MILANDO RESULTANTE DO DIVORCIO, RESIGNA-SE A CARPIR A SUA POUCA SORTE ATÉ AO FIM DA VIDA).


    8 - MUTHHÚ KHANÍVA EKULUWE,AREVÁ MUNÈNE -
    NINGUÉM MATA O PORCO SELVAGEM E SE PÕE A CHAMUSCÁ-LO.
    (NEM SEMPRE AQUELE QUE DANÇA PAGA A MUSICA. UNS BATEM O MATO; OUTROS APANHAM AS LEBRES).


    9 - WÈTTA ÈLI, MURETTE -
    ANDAREM DUAS PESSOAS EM COMPANHIA UMA DA OUTRA É REMÉDIO.
    (AI DO HOMEM QUE VIVE SÓ. COMPANHIA DE DOIS, COMPANHIA DE BONS. VIDA DE SÓ, VIDA DE JOB. SÓ ME ACONSELHEI, SÓ ME CHOREI).


    10 - NIHIKU NIMOSÁ KHANNÙTTA TTHORÓ -
    O RATO DO CAMPO "TTHORÓ" NÃO APODRECE NUM SÓ DIA.
    (UMA VEZ NÃO SAÕ VEZES . O QUE SE NÃO FAZ NO DIA DE SANTA MARIA, FAZ-SE AO OUTRO DIA. O QUE SE NÃO FAZ NUMA VEZ FAZ-SE EM DUAS OU TRES).

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