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João Sabadino Portugal
Mascote ilegal
Fora da lei...

Nasceu em 1962.
O dia e o mês ninguém sabe.
Nem o nome original.
Aos cinco anos roubaram-lhe o colo materno.
Dois anos depois veio para Portugal com um grupo de Fuzileiros de quem
era mascote.
Anos mais tarde descobriu que estava ilegal.
- MOÇAMBIQUE, JUNHO
DE 1967
Um Destacamento de Fuzileiros Especiais
portugueses veste o camuflado e arranca para a primeira operação na zona
de Mocimboa da Praia, Cabo Delgado. Devidamente artilhados, os soldados
entranham-se mato adentro à procura de presença inimiga.
Alguns passos adiante deparam-se com um grupo de mulheres indígenas.
Seguem-lhes o rasto, discretamente, até à aldeia mais próxima. Logo que
se apercebem da chegada de militares, os locais começam a fugir,
apavorados. Procuram por um abrigo, arranjam uma forma de escapar à
chacina.
Enquanto isso, um dos fuzileiros tenta impedir a sua fuga com disparos
contínuos e ensurdecedores de metralhadora. Findo o carregador faz-se
silêncio, e um manto de capim ruma ao céu, deixando a descoberto uma
aldeia sem vivalma. Deserta. Por instantes, pensou-se que todos
estivessem mortos. Puro engano. Um buraco estrategicamente cavado na
terra serviu-lhes de escudo.
Escapam à morte, mas não de serem capturados e, posteriormente,
entregues ao cuidado dos serviços competentes, em Porto Amélia (Pemba).
Durante o regresso, os militares aproveitam uma curta paragem para se
refrescarem no mar. Os indígenas, que nunca tinham vislumbrado tamanha
imensidão de água ficam perplexos. Eufóricos. Durante breves momentos a
aflição cede lugar à descompressão. A uma felicidade que parece não ter
fim. O brilho espelhado no olhar de uma das crianças, que corre
despreocupadamente pelo areal, desperta a atenção do grupo de
fuzileiros. E como naquela época era comum os Destacamentos terem uma
mascote, um dos militares , por impulso, coloca a hipótese de o adoptar.
Assim foi.
João Sabadino Portugal. Foi desta forma que se passou a chamar o petiz.
João, porque era dia 24, o mesmo em que se comemora o S. João – passando
a ser também esse o dia em que comemora o seu aniversário. Sabadino,
porque era sábado. Portugal, porque, afinal, tratava-se de um
Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses. Com a autorização da
mãe, o rapaz foi viver para o quartel dos soldados.
O petiz tinha a própria camarata, o próprio armário e uma farda igual à
dos seus novos compinchas. Durante dois anos foi a coqueluche dos
militares. Em 1969, quando a Comissão chegou ao fim, aos 70 oficiais que
se preparavam para regressar a Portugal, juntou-se o pequeno João, à
responsabilidade de um Oficial Imediato. Tinha sete anos. E uma vida
pela frente. Agora, em Portugal.
João guarda poucas recordações desses tempos. "Lembro-me do quartel, de
um macaco, de quem tinha muito medo, mas que estava sempre a atiçar,
recordo-me de andar vestido com uma farda que me fazia sentir muito
importante, e de ser bem tratado por todos eles", confidencia. "Os maus
tratos vieram depois ", deixa escapar acompanhando as palavras com um
ligeiro abanar de cabeça. Prenúncio de um sentimento mal resolvido.
CASCAIS, JUNHO DE 1969
Meia dúzia de dias
após a chegada a Portugal, João foi entregue aos cuidados da mãe do
Oficial Imediato que o adoptou: "Foi ela que me criou e educou, a ele só
via ao fim-de-semana", começa por contar. "Mas ela era muito mazinha
comigo", acrescenta, sem disfarçar um nervoso miudinho, que se acentua
quando recorda a dura vida que levou ainda muito novo. "Sabem o que é
ter que aspirar, lavar loiça, coisas que não me competiam Era como se eu
lhes tivesse que dar algo em troca da educação, da comida Era um
escravo", conclui, inconformado.
A gota de água foi quando, já após a morte da senhora, João levou uma
violenta tareia de mangueira do pai adoptivo que lhe deixou marcas que
ficarão para sempre gravadas na cabeça. E no corpo. Sempre que se vê ao
espelho, a antiga mascote tem de enfrentar duas enormes cicatrizes nas
costas que lhe trazem à memória lembranças que luta para esquecer. "É
verdade que fiz uma coisa estúpida na escola, algo que agora não posso
estar aqui a dizer, mas ", começa por revelar. " Só sei que foi a
primeira e a última vez que me bateram assim".
Revoltado, João fugiu de casa. Mas logo que o encontrou, e para que o
episódio não se repetisse, o Oficial decidiu mandá-lo para casa de
familiares, nos Açores. "Fui para lá estudar e trabalhar na pesca. Mas
se nós saíamos para o trabalho à noite, como é que eu ia conseguir
acordar de manhã para ir para a escola!?", interroga.
Com a ajuda dos companheiros de pesca conseguiu arranjar dinheiro para
comprar um bilhete de regresso ao Continente. Apanhou o primeiro avião e
mal desembarcou em Lisboa foi bater a casa do pai adoptivo. Este, sem dó
nem piedade, virou-lhe as costas.
João fez-se à estrada, sozinho, com vinte escudos no bolso. "Estava com
uma raiva tão grande dele que comecei a andar, a andar. Fui de
Carcavelos até Lisboa, precisava de gastar toda a energia que tinha no
corpo. Cheguei à Rua das Flores e parei porque estava cansado. Depois,
passei a viver ali. Batia à porta de casa das pessoas para pedir comida.
Dormia perto dos bombeiros, no jardim ou em carros abandonados", recorda
sobre os sete anos como sem-abrigo.
LISBOA, DE 1979 EM DIANTE
Durante esses tempos, João Sabadino Portugal fez amizades de ocasião,
outras que, apesar das curvas e contracurvas da vida, mantém. Tentou o
amor. "Éramos amigos, depois apaixonámo-nos, mas aquilo deu azar."
Arranjou biscates em troca de comida. E, como a vida não lhe corria de
feição, deixou-se enveredar por caminhos mais sinuosos. Meteu-se na
droga. "Fumei uns charros, mais nada." Esteve preso. "Eu não sabia para
o que é que ia, fui com eles, e olha, assaltámos um café." Conseguiu
sobreviver a tudo.
No meio do turbilhão de emoções, certo dia, para piorar as coisas, João
perdeu o Bilhete de Identidade. Naturalmente, tratou rapidamente de
obter a segunda via. "Fui a Alvaiázere, onde estava registado, buscar a
minha certidão de nascimento, preenchi a papelada, meti lá o dedo para
impressão digital e disseram-me para ir levantá-lo dali a uma semana."
Quando lá voltou disseram-lhe que tinha de se dirigir aos registos
centrais. Foi o que fez. Preencheu mais uma série de papéis, sem
perceber muito bem para o que é que rabiscava, e ficou a saber que para
receber o novo B.I. tinha que arranjar comprovativos dos locais onde
tinha vivido e trabalhado nos últimos anos. Uma missão quase impossível
para alguém com uma vida desregrada. "Tentei explicar-lhes, mas parece
que ninguém me ouviu".
Entretanto, passaram-se vinte e sete anos. João Sabadino Portugal
continua fora da lei.
Todos estes anos, trabalhou esporadicamente através de empresas de
cedência de pessoal, fez os devidos descontos para a Segurança Social,
uma vez que tem cartão de contribuinte. No que respeita a saúde, nunca
necessitou de cuidados médicos que justificassem a apresentação de um
cartão de identificação. E a polícia nunca o abordou. É caso para dizer
que, no meio de tanto azar, tem tido alguma sorte.
Mas esta não é uma situação confortável. "Preocupa-me muito, se um dia
quero ir a algum lado, dar uma volta maior, não posso. Se eu tenho
registo, para quê tudo isto!? Estou baralhado, estou baralhado", diz
repetidamente, em alto e bom som, como quem se esforça por se fazer
ouvir. Mas a burocracia tem orelhas moucas.
No seu caso, a dificuldade na obtenção de um novo B.I. prende-se com o
Decreto Lei 308-A/75 de 24 o Junho, que regulamenta a legalização dos
oriundos das ex-colónias. Ou seja: se o João Sabadino tivesse chegado a
Lisboa antes de 25 de Abril de 1969 não haveria problema, mas como só
chegou em Junho não pode ser considerado português, sendo que também não
é moçambicano. O problema só foi detectado porque, entretanto, perdeu o
Bilhete de Identidade. “Parece que antes de sair a dita lei davam B.I. a
todos, mas depois, para se nacionalizarem, teriam que preencher
determinados requisitos, como casar com um portuguêsa, estar cá há mais
de cinco anos...”, explica.
SEIXAL, JULHO DE 2005
Quis o destino que em Maio deste ano João Sabadino Portugal se cruzasse
com um dos fuzileiros que o trouxeram para a então Metrópole. Há trinta
anos que João Serra o procurava. "Após o regresso de Moçambique, ainda
mantivemos o contacto. Tinha uma banda de música, os 'The Tigers', e
costumava ir buscá-lo aos fins-de-semana para participar nos
espectáculos."
Mas a determinada altura, a coisa mudou de figura. "Um dia liguei para
casa da senhora que tomava conta dele e ela disse que eu só estava a
prejudicá-lo, a desencaminhá-lo. Então deixei de o fazer", revela João
Serra, que, a partir daí, perdeu o rasto ao pequeno João. Nunca o
esqueceu.
Anos depois, o ex-fuzileiro iniciou uma busca incansável pelo menino
traquina que fez as delícias do Destacamento de Fuzileiros. "É incrível
ter sido tão difícil dar com ele. Afinal, andou todo este tempo por
Lisboa", reflecte João Serra que não descansou enquanto não soube do
paradeiro da 'pequena mascote'. "Abordei pessoas na rua, procurei em
circos, andei por conservatórias. Ele era como se fosse um filho para
mim. Nunca perdi a esperança."
Esperança é a palavra que melhor descreve aquilo que João Sabadino
Portugal voltou a sentir depois de reencontrar João Serra. Já não se
recordava dele, mas assim que soube de quem se tratava foi incapaz de
conter as lágrimas. "Era como se estivesse em frente a alguém da minha
família", explica. Após o encontro com o velho militar, a vida de João
Sabadino Portugal deu uma volta de 180 graus. Foi viver para a outra
margem do rio Tejo, arranjou um novo trabalho e até fez novas amizades.
"Estava cansado. Queria um futuro melhor. Tinha lá pessoas de quem
gostava, mas nem sequer pensei duas vezes quando ele me fez o convite.
Precisava de sair dali, tinha que fazer alguma coisa para fugir daquele
ambiente", explica a antiga mascote.
Agora, a prioridade máxima de João Serra é ver a situação deste homem
legalizada – a última tentativa para resolver esta “novela de difícil
solução”, como lhe chama, foi redigir uma carta ao cuidado do Ministério
da Administração Interna – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Até à
data, ainda não obteve qualquer resposta.
Por seu lado, João Sabadino Portugal vive a aguardar por dias mais
felizes. Para contrariar os ponteiros do relógio, quando não está a
trabalhar – e para não pensar muito –, este homem, pouco sociável,
fechado, aproveita o difícil passar das horas para ler e ver televisão.
"Leio tudo o que me passam para a mão. Na televisão, gosto de ver
documentários, filmes e futebol, pelo menos quando é o meu Benfica",
conta, folheando nervosamente o 'Baudolino' de Umberto Eco. "Já o li
duas vezes, foi o meu afilhado – filho da mulher com quem vivi – que me
ofereceu", diz, cabisbaixo.
Para João Sabadino Portugal – assim como para muitos de nós, a ficção é
a melhor forma de fugir a uma triste realidade.
HÁ VIDA DEPOIS DO SOFRIMENTO
João Sabadino Portugal está a viver uma segunda vida. Passado o pesadelo
reaprende a sorrir. E o culpado por esta metamorfose é João Serra. O
antigo soldado do Destacamento de Fuzileiros Especiais portugueses em
Mocimboa da Praia deu-lhe a mão que precisava para tentar dar um novo
rumo à sua vida. É um esforço desmedido, uma luta de todos os dias. Mas
ele não desiste, apesar de saber que a caminhada não será fácil.
João Serra tem feito tudo o que está ao seu alcance para que este homem
consiga reencontrar a felicidade. Desde casa, a trabalho, o ex-fuzileiro
tem-lhe proporcionado momentos únicos em família. Momentos que nunca
teve, uma família que nunca teve. Aos fins-de-semana, João Serra leva a
antiga mascote para sua casa, junto da mulher, filhos e amigos. Juntos
passam agradáveis momentos de convívio. “Acho que lhe devemos isso,
quando o trouxemos de Moçambique, ele era como um filho para todos
nós”,sublinha. Dito isto conclui: ”Ao longo de todos estes anos, nunca o
esqueci, apesar do afastamento. Agora, sinto que tenho que fazer algo
por ele, e faço-o de boa vontade.”
EM BUSCA DA FAMÍLIA PERDIDA
O reencontro com João Serra trouxe a João Sabadino Portugal nova luz. A
antiga mascote descobriu que, ao contrário do que sempre lhe foi dito,
afinal a mãe pode estar viva. "Achei que era impossível. Sempre me
disseram que a minha família tinha morrido", conta,emocionado. E
confidencia que apesar de ter acreditado nessa realidade, nem sempre a
aceitou. “Houve alturas em que chorava pelos cantos, sentia-me sozinho,
sentia a falta de uma mãe", acrescenta.
Encontrá-la é agora a sua prioridade.
O seu grande sonho. "Tirava-me este peso todo que tenho cá dentro, esta
mágoa. Seria uma alegria." Com o auxílio de João Serra, até já enviou um
email para a televisão de Nampula a expor a situação. Enquanto não há
novidades, contempla a mãe, com saudade, através da fotografia que
registou o momento da despedida em Moçambique. A imagem foi-lhe
oferecida por João Serra e agora vive numa moldura pregada na parede do
seu novo quarto.
E-MAIL PARA A TV DE NAMPULA
Data: Quinta-feira, 30 de Junho de 2005
Para: tvmnampula@teledata.mz
Assunto: PROCURA-SE FAMILIARES
Ex.mos Senhores,
Peço a vossa ajuda com o objectivo de João Sabadino Portugal, hoje com
43 anos, saber se tem família em Moçambique. Em 1968, foi adoptado por
uma unidade militar portuguesa, que o trouxe para Portugal em Junho de
1969. Até ao momento, desconhecia a possibilidade de existência de
familiares, devido a informações deturpadas que lhe foram transmitidas.
Agora, foi confrontado com fotografias que lhe foram mostradas por um
antigo militar da unidade. A sua família vivia na zona de Mocimboa da
Praia e pensa-se que mais tarde se deslocaram para Porto Amélia.
Agradecendo a atenção dispensada para esta acção humanitária, apresento
os meus melhores cumprimentos, João Serra.
MOÇAMBIQUE - DATAS COM HISTÓRIA
- 25 de Setembro de 64 Início, em Mueda, da luta de libertação nacional.
- 25 de Abril de 74 golpe militar em Portugal abre caminho para a
independência do território.
- 25 de Junho de 75 é proclamada a independência. Samora Machel torna-se
no primeiro presidente do país.
Se tiver informações que possam ajudar este cidadão contacte:
João Serra, antigo fuzileiro
Telemóvel: 93 51 00 952
E-mail:
joaoserra@iol.pt
(Colaboração
de Tó Coelho)
Dois
comentários:
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Segunda-feira,
12 Setembro
- benfirox7
Boa Sorte na busca dos familiares.
O que aconteceu a esta pessoa poderia ter acontecido a
qualquer um, e caberia a um governo sério, corrigir os erros
da guerra como este.
Milhares morreram, milhares ficaram com marcas para toda a
vida, mas estes senhores saídos das universidades
directamente para a rua sem experiência de vida alguma,
continuam a governar como se nada tivesse acontecido. |
Domingo, 11
Setembro
- Filomena
Louvo a atitude do ex-fuzileiro João
Serra, felizmente ainda se encontram almas boas, mas eu
gostava muito que tivessem mencionado o nome de quem tão mal
tratou a mascote da companhia, possivelmente um nome sonante
da nossa sociedade. |
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