MEMÓRIAS DAS ILHAS DE QUERIMBA

TRANSFORMAÇÕES NO BAIRRO RURURBANO DA ILHA DO IBO

(1969-72)

 

 

Carlos Lopes Bento[1]

 

 

RESUMO

 

Com este trabalho[2] pretende dar-se testemunho público sobre uma fecunda e proveitosa experiência de desenvolvimento comunitário realizada em Moçambique, entre 1969 e 1972, pela comunidade mwani da zona rururbana da ilha do Ibo, esta, uma das três dezenas de ilhas que fazem parte do arquipélago das Querimbas ou de Cabo Delgado.

 

O seu autor, que liderou o processo, após a caracterização geográfica e social da dita Ilha, no contexto mais vasto onde se integra, examina os factores mais relevantes e significativos que influenciaram o conjunto de acções que esteve na base dos trabalhos levados a efeito com vista a solucionar alguns dos problemas que, há muito, afligiam a população do bairro contíguo à Vila: arruamentos, iluminação, habitação, ... .

 

E a finalizar interroga-se sobre a possibilidade desta experiência concreta, coroada de êxito, levada a efeito, há mais de três dezenas de anos, numa situação de domínio colonial, poder servir de paradigma e vir a ser aplicada, num Moçambique independente e cheio de carências, ainda que em condições económicas e sócio-políticas bem diferentes daquelas em que se originou tal experiência.

 

1 - A GEOGRAFIA, ECOLOGIA, POPULAÇÃO E ECONOMIA

 

No litoral mais setentrional de Moçambique e no canal do mesmo nome, entre os rios Rovuma (11° 20' Lat. e 38° 36' Long.) e a baía de Pemba (13° 05'Lat. e 42° 32' Long.) está situado o arquipélago das Querimbas ou de Cabo Delgado (Fig.1), do qual faz parte a ilha do Ibo.

 

Distando cerca de 70 léguas da ilha de Moçambique e com uma extensão aproximada de 40, as ilhas do arquipélago, em número de 3 dezenas (28 para uns autores, 32 para outros) estão dispostas em forma de rosário, formando de Cabo Delgado para sul um longo e temeroso paredão, paralelo às terras firmes, estando destas afastadas, em média, cerca de 10 milhas.

 

Ao estado de anarquia provocado por esta barreira natural, recortada por tortuosos canais, há a acrescentar as correntes marítimas, violentas e desordenadas, que aí circulam, como resultado dos efeitos da corrente equatorial, das monções e das marés.

 

Próximas umas das outras - menos de uma dezena de milhas - e de pequena superfície - a do Ibo a 4ª em área tem apenas 15 Km² (5x3) –orograficamente, as ilhas são caracterizadas por pequenas altitudes que oscilam entre os 4 e 30 metros. Mas a maioria delas não ultrapassa a cota da dezena de metros.

 

Na linha do litoral que lhe fica adjacente, bastante recortada, encontramos acidentes geográficos, dos quais destacamos: vários cabos, baías e barras.

 

A costa, em direcção ao interior, numa extensão de 50 Km, é baixa, não se elevando acima dos 60 metros.

 

Nas ilhas não existe qualquer curso de água e nas terras firmes adjacentes, com algum significado, apenas temos dois rios: o Messalo e o Montepuez.

 

O clima pode classificar-se, de grosso modo, como um clima tropical sub-húmido, sujeito ao regime das monções, responsável, em longa medida, pelas duas estações anuais distintas - a das chuvas que vai de Novembro a Março e a seca que corresponde aos meses de

 

                                                                           Fig. 1- Situação geográfica das Ilhas de Querimba

                                                                           Crédito: Orlando do Amaral, 1992

 

Abril a Outubro - caracterizadas por uma distribuição pluviométrica desigual e irregular ao longo do ano (aproximadamente 700 mm/ano).

 

Os solos das ilhas são constituídos, essencialmente, por rochas corálicas, areia e alguns húmus resultante da fraca vegetação arbórea que as cobre.

            A natureza dos solos, conjugada com o regime das chuvas, tornaram as terras insulares pouco propícias para a agricultura. Excepção feita a parte da ilha de Querimba, em que predominam alguns solos de qualidade para aquela actividade.

 

                                                     Fig-2- Rocha corálica na I. De Matemo      Fig 3- I. Querimba. Palmar e seus produtos.

                                                                       

Em 1972, das 20 ilhas povoadas no século XVI e parte do XVII, apenas as de Matemo, Ibo, Querimba e M'funvo eram habitadas permanentemente. Há vestígios de povoamento anterior na Amisa, Macaloé e Quisiwa.

 

A ilha do Ibo, por ter sido capital dos governos subalternos e de distrito, de 1764 e 1929 e o principal porto de cabotagem, com Alfândega a partir de 1787, foi habitada por uma população mestiçada, biológica e culturalmente, com um modo de vida e situação social bem diferenciadas daqueles que se encontravam nas outras ilhas povoadas e nas terras firmes.

 

            A sua economia tinha como base alguma agricultura, maior parte dela praticada nas terras firmes, a criação de gado (bovino, caprino e ovino) e de aves domésticas (galinhas e patos), a pesca (com grande variedade de espécies aquáticas, destacando-se, pelo seu valor económico, as ostras e as variadas conchas), a navegação e algum comércio. No passado, depois dos meados do século XVIII, até há menos de um século, pontificou o tráfico esclavagista.

 

Foi o principal bastião da presença colonial portuguesa e a atestá-lo estão a fortaleza de São João Baptista (1789-94) e os fortes de São José (1764) e de Santo António (1818), que defenderam a ilha dos ataques dos franceses(1796) e livraram a população dos ataques dos Sakalava,- povo malgaxe-(1800-1817.

 

 

                                                                        Fig.4- As fortificações de São José(esq.), São João Baptista e Santo António

                                                                                             Crédito: Carlos Bento. 1971

 

Pelas condições ecológicas adversas, a fixação humana teve apenas lugar num terço do seu território, que abrange uma parte urbana, constituída pela Vila do Ibo, instituída em 1761 e erigida em 1764 e pelo denominado bairro indígena, cujos habitantes se integravam numa única regedoria (Muaba Bonga).

 

                                                                                         Fig.5- A parte habitada da ilha do Ibo

                                                                                               Crédito: Carlos Bento. 1971

 

Foi neste último espaço geográfico ocupado, densamente, por uma população pautada por um etno-estilo típico, que teve lugar a experiência abordada no presente trabalho.

 

A dita população, maioritariamente, da etnia mwani[3], era, segundo o censo de 1971, de 3518 indivíduos[4], dos quais 45,7% pertencia ao sexo masculino e 54,3% ao sexo feminino.( ver Quadro I em Anexos)

 

Estava-se perante uma população, aparentemente, envelhecida, em que quase 2/3 se integrava no sector dos activos. À população jovem e velha cabia 28,8 e 7,6%, respectivamente. A menor percentagem de jovens recenseados estava relacionada com processo de enculturação e socialização, que, segundo os valores culturais estabelecidos, nem sempre era realizado no seio da família de procriação, mas pelo contrário, de acordo com os usos e costumes, em casa dos tios ou avós paternos, muitas vezes sediadas noutras povoações que não a do Ibo.

 

O Quadro II(em Anexos) mostra-nos a distribuição da população com idade superior a 14 anos, por sexos e segundo o estado civil.

 

É interessante notar que predominavam os "solteiros" sobre as "solteiras": 56,0 contra 44,0%, o que já não se verificava, relativamente, aos restantes estados civis, em que a predominância cabia ao sexo feminino. A explicação para esta discrepância, entre outros factores, estava relacionada, por um lado, com a constituição da família, em que o 1º casamento tinha como base uma compensação (o mahari), menos acessível à juventude e, por outro lado, com a existência da família poligínica que exigia um maior número de mulheres.

 

Mesmo assim as frequências apresentadas para "solteiros", "viúvos" e "divorciados" são, exageradamente, altas e não correspondem à realidade concreta existente. A maior parte dos recenseados indicavam tais "estados civis" para evitar problemas com o "serviço de censos", pois, na realidade, poucos eram os homens e as mulheres que viviam sem parceiros do outro sexo. Constituíam, segundo os usos e costumes, uniões de facto que não revelavam nos recenseamentos para evitar as constantes idas à Administração do Concelho alterar o seu estado ou para não darem a conhecer, publicamente, aspectos da sua vida privada. Convém recordar que a família tinha, quase sempre, uma vida curta, sendo vulgar, um homem ou uma mulher, durante a sua vida, casarem e divorciarem várias vezes, frequência que podia que ir para além de 6.

 

A população escolar da ilha do Ibo, em escolas oficiais, pode ser observada no Quadro III(em Anexos). Para além destas escolas existiam as escolas maometanas (madrassas) que eram frequentadas pelas crianças, desde tenra idade, procriadas no seio de famílias de religião islâmica.

 

Sem dúvida que o ensino, com mais de um século de implantação na ilha do Ibo, constituía uma realidade bem palpável, que, de algum modo, estava relacionada com os múltiplos papéis sociais desempenhados pela população masculina do citado bairro, que constam do Quadro IV(em Anexos).

 

Da população masculina, maior de 14 anos, recenseada em 1971, 69,4% tinha uma actividade profissional, que exercia por conta própria ou por conta de outrem.

 

A população activa distribuía-se pelos 3 sectores de actividade económica, cabendo a maior percentagem à actividade ligada à exploração dos recursos aquáticos[5] e transportes marítimos.

 

Os alfaiates, mais de 80,0% a trabalhar por conta própria, desempenhavam uma actividade importante na sociedade mwani, cabendo-lhe a confecção de todo o vestuário masculino e feminino, indispensável para satisfazer as necessidades da população, tanto profanas como sagradas.

 

Na construção civil também se ocupavam cerca de 18,0% dos homens, percentagem que mostra bem a importância social da habitação nesta comunidade mwani.

 

O número de ourives recenseados estava relacionado, tal como acontecia com o vestuário, com o papel que tinham, especialmente, entre as mulheres, os objectos em ouro, prata e latão, bens de prestígio, que espelhavam o seu status no seio do grupo e da comunidade local. Cabia aos maridos adquiri-los, para depois os oferecer de presente às suas esposas. A falta de cumprimento desta obrigação, culturalmente estabelecida, podia constituir um passo decisivo para a concretização do divórcio.

 

De salientar a elevada percentagem, de mais de 12,0%, de homens que exerciam a actividade, na vila do Ibo, como empregados domésticos, aliás, um papel social, predominantemente, masculino, na sociedade colonial.

 

Os salários para os trabalhadores por conta de outrem, destas várias categorias sócio-profissionais, que variavam entre os 130$00 e 1000$00, mensais, dada as fracas potencialidades da agricultura, toda ela de subsistência, tornavam-se indispensáveis para manter a família convenientemente alimentada e ataviada, especialmente, as mulheres bem adornadas e uma habitação de boa qualidade, com muitos objectos de mobiliário[6].

 

A população da área geográfica em análise vivia em 1211 habitações de 3 tipos de construção: de pedra e cal; de matope; e de pau-a-pique. Em anexo, a cada habitação, havia, quase sempre, um quintal, no qual, para além de árvores de fruto com a mangueira, papaeira, ateira, abacateiro9, ... , podia existir uma cozinha, um choero (casa de banho simples), uma capoeira e curral para animais domésticos e um poço aberto no coral.

 

Em 1972, a dita população era detentora de 1675 animais domésticos, assim distribuídos: 447 cabritos; 69 ovelhas; 65 bovinos; 932 galinhas; e 162 patos. Dispunha nos quintais e lugares públicos de 139 poços, onde se abastecia de água para as suas necessidades diárias.

 

2 - AS BASES E A CONCRETIZAÇÃO DO PROJECTO

 

Descrito, sumariamente, o contexto físico e humano, que serviu de base às várias acções levadas a efeito, o passo seguinte terá em vista conhecer as várias fases e vicissitudes por que passou o projecto de DC até à sua concretização.

 

No presente trabalho, embora se esteja ciente da importância dos vários problemas de natureza metodológica e teórica, que andam ligados à antinomia desenvolvimento/subdesenvolvimento, apenas se dará testemunho da experiência concreta realizada, e que, talvez, exageradamente, foi designada de desenvolvimento comunitário e, ainda, das variáveis que influenciaram, favoravelmente, os resultados alcançados.

 

O modesto projecto realizado na regedoria da ilha do Ibo, entre 1969 e 1972, da responsabilidade da administração do concelho, teve como paradigma a nova concepção de desenvolvimento, surgida em 1966, na Conferência Geral da UNESCO[7], que passou a estar ligado aos conceitos de evolução sócio-cultural, de mudança e de crescimento.

 

A partir de então, os responsáveis encarregados de zelar pelo bem-estar e pelo incremento da qualidade de vida das populações, passaram a considerar o desenvolvimento como algo importante que representava a expressão da grandeza do homem e que deveria ser realizado sempre pelo homem e para o homem, segundo os seus valores, sentimentos, emoções e necessidades.

 

Nascera a plena consciência de que o desenvolvimento sócio-económico, constituía um problema que todos os membros da Comunidade deveriam compreender e em cuja solução teriam de participar, dando assim resposta às suas necessidades, tanto materiais como morais e simbólicas.

 

Neste quadro de referência, todo o projecto de desenvolvimento, seja ele rural ou de outra natureza, tem, à partida, de considerar todos os aspectos da realidade sócio-cultural que se quer mudar e não apenas os económicos, nomeadamente, aqueles - da tecnologia ao mundo do sagrado - que coloquem obstáculos à aceitação da mudança, sem a qual qualquer projecto, dificilmente, terá êxito.

 

Foi no âmbito deste novo entendimento de desenvolvimento que se planeou e se pôs em prática um conjunto de acções que tinha por principais objectivos resolver alguns dos problemas ligados ao bem-estar/qualidade de vida que há muito afligiam os habitantes do bairro.

 

Tudo começou, em 1969, com a colocação do autor deste trabalho no Concelho do Ibo, como administrador de concelho, que, diga-se desde já, não solicitou, nem tão pouco lhe agradava. Tratava-se de uma circunscrição administrativa que, embora com uma história social e cultural enriquecida e cheia de pergaminhos, estava decadente e moribunda, situação que não satisfazia as ambições profissionais de um jovem funcionário administrativo.

 

Depois de ter percorrido, demoradamente, o "bairro indígena", então, assim designado, constatou:

 

1- A existência de um bairro habitacional, com cerca de 3500 habitantes, distribuídos por 1211 habitações, num espaço de cerca de 1,5 km², que não possuía qualquer tipo de caminho ou arruamento digno desse nome. O solo corálico, irregular e rugoso, com desníveis acentuados, não favorecia a circulação cómoda e segura das pessoas, situação agravada, especialmente, quando calcorreado durante a noite;

 

            2- O mau estado de conservação de muitas habitações, construídas com materiais da terra, pedra talhada ou paus, maticadas ou rebocadas a cal, que não ofereciam as condições desejáveis de segurança e de sanidade;

           

            3- A descapitalização dos pescadores, que tinham dificuldades em renovar as suas artes, especialmente, as redes de emalhar, que lhe permitiriam aumentar as capturas;

           

            4 - A falta, por parte dos ourives, de matéria-prima e de alguns instrumentos ligados às tecnologias tradicionais, indispensáveis para a sua sobrevivência como artesãos.

 

 

Estas situações problemáticas, que, aliás, não eram novas, por falta de disponibilidades financeiras e pelo desinteresse geral que havia por uma vila decadente e em ruínas, como era a do Ibo, foram-se agravando e degradando com o decorrer dos anos.

 

À primeira vista, as acções que poderiam desenvolver-se e pôr em prática para as alterar, com os meios oficiais disponíveis, eram reduzidas ou quase nulas.

 

Nestas condições, a atitude a tomar, perante um facto que parecia consumado, seria a de passividade e da comodidade, isto é, manter as coisas tal como se encontravam. Haveria sempre a possibilidade de as justificar argumentando falta de verbas orçamentais.

 

Porém, tal comportamento não se coadunava com a maneira de ser e de estar, nem com o espírito de bem-servir que sempre pautou a conduta da nova autoridade administrativa.

 

Havia que pensar, imaginar alternativas para solucionar as situações de carência sentidas pelas populações socialmente mais desfavorecidas.

 

Felizmente, para bem delas, foi encontrada uma maneira diferente de resolver o impasse e ultrapassar uma situação que parecia eternizar-se.

 

A primeira coisa que se fez foi observar, de maneira sistemática, a realidade sócio-cultural em questão, conquistar a confiança das populações e conhecer as suas motivações para a mudança.

 

Para alcançar estes objectivos realizou-se um estudo exploratório interdisciplinar, que, com a ajuda da observação participante e de entrevistas informais, permitiu perceber a dinâmica da comunidade, as forças sociais que se agitavam no seu seio e respectivas influências e, ainda, as suas necessidades mais prementes.

 

Por outro lado, foram-se conhecendo as principais instituições, valores e padrões de cultura, que tipificavam o modo de vida destas populações: os ritos de passagem - nascimento; apresentação à sociedade (akika); circuncisão (kumbi) para os rapazes e riga para as raparigas; casamento (arusi); e morte -; as dezenas de danças do diabo destinadas a expulsar os demónios, principalmente de mulheres; as diversas cerimónias simbólicas de carácter mágico, destinadas a proteger pessoas, bens e actividades; os diversos rituais ligados à religião islâmica ... .

 

Com os dados recolhidos, construiu-se um questionário pré-estruturado de questões fechadas, com 92 perguntas, destinado a examinar aspectos da situação social, que permitiu conhecer muitos dos traços e complexos da cultura desta Comunidade: os hábitos de higiene; práticas ligadas aos ritos de passagem, adornos, estrutura das habitações e materiais de construção utilizados; quintais e suas funções; mobiliário e roupas; utensílios e alfaias; utensílios ligados à preparação, conservação, distribuição e consumo de alimentos e móveis; hábitos alimentares, produtos utilizados e refeições; hábitos de fumo e de leitura; a forma de relacionamento com parentes e terras visitadas; o casamento e o divórcio, suas frequências e causas do segundo; deveres dos cônjuges; deveres dos pais para os filhos e destes para aqueles; causas da não observância de muitos costumes por parte da juventude; número de filhos mortos e vivos; aceitação do casamento com parceiro de cor diferente e razões; as tarefas domésticas e o sexo; a origem do prestígio individual; os quantitativos dos salários percebidos nas diferentes actividades; o vestuário, segundo o sexo, idades e o seu custo.

 

Ao mesmo tempo que se ia observando e percebendo, nas perspectivas émic e étic, a realidade sócio-cultural, estabeleceram-se contactos com as pessoas mais influentes da Comunidade - homens e mulheres -, de modo a detectar a sua capacidade de liderança e o seu grau de motivação, como da restante população, para participarem, activamente, no seu próprio desenvolvimento e a conhecer a sua disponibilidade para colaborar, directamente, em possíveis trabalhos de interesse comum, voltados para a melhoria da sua qualidade de vida.

 

As longas e contínuas conversas com dezenas de dignatários religiosos, de ambos os sexos, pessoas idosas, autoridades auxiliares da administração colonial e gente anónima, fizeram nascer, no espírito do autor deste trabalho, a esperança de que seria possível contar com a colaboração activa das gentes do Ibo em todas as acções que visassem a solução dos seus próprios problemas.

 

Depois de conhecido tal consenso, o passo seguinte seria motivar a população, o que se conseguiria, pouco a pouco, com a ajuda de numerosas banjas[8] e frequentes contactos personalizados e informais com líderes locais.

 

As condições para desencadear as primeiras acções tinham sido atingidas. Tornava-se, depois, necessário estabelecer prioridades.

 

Começou-se pelos arruamentos. Sabia-se que, sem meios financeiros, mas com a ajuda de ferramentas simples e baratas (picaretas, alavancas, marretas, pás e enxadas) e com um tractor com reboque, que a Administração do Concelho podia pedir emprestado à Comissão Municipal, disponíveis para o efeito, poder-se-ia, com o auxílio da população, que forneceria mão-de-obra graciosa e voluntária, dar início aos trabalhos.

 

Nos princípios de Janeiro de 1970, isto é, após 6 meses de preparativos, iniciaram-se os trabalhos de construção de arruamentos nas povoações dos chefes/líderes mais motivados, disponíveis para a mudança e entusiasmados com o projecto proposto. Prestou a sua colaboração toda a população adulta, cabendo aos homens os trabalhos mais pesados, como o desbate e corte de pedra.

 

Em 26 de Janeiro desse ano, escrevia-se no Diário de Serviço: "os arruamentos estão a tomar um óptimo aspecto. Os trabalhos decorrem, normalmente, mas morosamente em virtude de ser necessário cortar muita pedra de coral".

 

O processo estava desencadeado e em marcha e a sua aceitação era cada vez mais generalizada entre toda a população da regedoria.

 

Continuaram-se com as banjas, umas com a população, outras apenas com os dignatários locais. A intervenção da autoridade administrativa limitou-se, sempre, em todo este processo, a orientar, a motivar e aconselhar aqueles dignatários, nunca tendo a menor intervenção e qualquer influência no recrutamento e formação das equipas e na orientação diária dos trabalhos.

 

Cedo esta experiência, obra dos vários dignatários e da população - atravessou fronteiras. Difundiu-se e chegou aos principais centros de decisão do Estado de Moçambique.

 

Em 9 de Agosto de 1970, houve mais uma banja com a população, mas desta vez com a presença dos senhores Governador de Distrito[9], Secretários Provinciais das Terras e Povoamento e da Saúde e Assistência, Directores Provinciais dos Serviços de Saúde, de Veterinária, da Junta de Povoamento e do Instituto do Algodão.

 

Nesta data, pelo Governo de Distrito, a pedido da Administração do concelho, era posto à disposição da mesma, um Fundo de Maneio de 150.000$00 destinado à melhoria da habitação local.

 

A população entusiasmada e honrada com a visita de tão ilustres Governantes, a 13 de Agosto iniciara a construção de novos arruamentos, mas desta vez, sem nenhuma motivação e orientação da nossa parte, demonstrando assim o desejo de possuir, junto às suas casas, arruamentos de qualidade, limpos e decentes. Todos tinham orgulho nisso.

 

Era o início de uma frutuosa competição entre povoações, que acabaria por criar alguns problemas, pois, não havia material disponível para todos. Depois de um adequado planeamento e uma eficaz coordenação tudo acabaria por ter uma solução.

 

Em 30 de Agosto realizou-se mais uma banja com a população, mas desta vez apenas foi tratado o problema da melhoria das casas de habitação: condições dos empréstimos e do seu reembolso.

Sempre pensámos nos enormes inconvenientes das ajudas a fundo perdido por acharmos que as obras em que participam, directamente, as populações interessadas são mais estimadas e protegidas do que aquelas em que a sua intervenção é nula. Por isso, estabeleceram-se normas que previam empréstimos individuais, em materiais e nunca em numerário, que podiam atingir os 12.000$00, que seriam amortizáveis até 36 meses.

 

As obras dos arruamentos continuavam em bom ritmo e a iluminação pública começava a constituir um novo objectivo a atingir e a satisfazer.

 

Muitos visitantes ilustres passaram a chegar, regularmente, ao Ibo e um dos locais obrigatórios do roteiro turístico à Ilha era, necessariamente, o bairro, parte dele, já com um novo visual.

No mês de Novembro, no dia 23, nova banja com a população em que se tratou de arruamentos, casas de habitação e pela primeira vez a iluminação pública fazia parte da ordem de trabalhos. No caso de algum milagre financeiro acontecer, gostaríamos de saber se a mesma população também estaria disposta a participar na construção de postes de cimento e no corte e transporte de postes de mangal. A resposta foi, mais uma vez, favorável.

 

Ainda nesse mês, o Senhor Governador de Distrito trouxe até à Ilha dois altos funcionários da Fundação Gulbenkian de Lisboa, acompanhados do arquitecto da Comissão de Monumentos de Moçambique, responsável pela restauração da Vila do Ibo.

 

Depois de visitarem o bairro e as obras em curso, achou-se oportuno solicitar àquela Instituição, sediada em Lisboa, material para os ourives locais, uma actividade artesanal em extinção, que era necessário recuperar. Também aqui tivemos êxito, pois, no ano seguinte recebeuse uma fieira e mais algumas ferramentas.

 

O ano de 1970 tinha sido de plena actividade e de êxito para as populações locais. Como prémio, no 1º dia do ano de 1971 receberam o Senhor Governador Geral[10] que, segundo as suas palavras, ficou encantado com o que viu.

 

Como recompensa oferecia a verba de 150.000$00 para a instalação da luz eléctrica nos novos arruamentos. As populações com o seu denodado esforço e querer tinham contribuído para este milagre.

 

Como reconhecimento do trabalho conjunto realizado, escrevia-se em 1971:

 

"... É de salientar a obra notável realizada pelo administrador do concelho, especialmente, no núcleo urbano indígena, onde tem feito um trabalho consciente e digno dos maiores louvores, uma vez que tem sabido mentalizar a população, levando-o a valorizar as suas habitações pelo uso dos processos tradicionais de construção"[11].

 

Em 28 de Fevereiro de 1971 chegava ao porto do Ibo, o navio Chinde com 2000 sacos de cimento, destinados às obras em curso. Também se fizeram vários fornos de cal ,com pedras e conchas.

 

Na banja de 3 de Abril, desse mesmo ano, abordaram-se os seguintes assuntos: habitação e empréstimos, iluminação eléctrica e arruamentos e sua toponímia. Esta focada pela primeira vez em banjas.

 

Havia que dar nomes aos novos arruamentos, sendo sugerido às próprias populações que escolhessem, entre as pessoas ilustres já falecidas, que ali tivessem nascido e residido, pois eram essas e, não outras, que constituíam marcos de referência e através do presente, ligariam o passado ao futuro. Passaram, a partir de então, a ter a sua toponímia própria. O processo levantou, de imediato, grandes reservas à Polícia Política (PIDE/DGS), também presente na Ilha, que sugeria nomes portugueses, que trouxe ao autor deste trabalho alguns amargos de boca. Contudo, prevaleceu a vontade e a escolha das populações.

           

            Em 1972, continuaram as obras, com banjas, menos frequentes, e, em Setembro de 1972, ao deixar o Concelho e rumar ao de Porto de Amélia, a obra realizada pelas populações locais e, apenas por elas, era significativa.

 

Ao fim de dois anos construíram-se cerca de 8 quilómetros de arruamentos, grande parte deles com iluminação pública e meia dúzia de moradores já com luz eléctrica em suas casas.

 

Foram assinados 119 contratos e concedidos outros tantos empréstimos, no montante de 162.012$00, com os quais se edificaram, em regime de auto-construção, 150 novas habitações, segundo a traça tradicional e se beneficiaram 300, isto é, cerca de 40% do parque habitacional do bairro havia sido melhorado. Os contratos celebrados foram, com raras excepções, pontualmente cumpridos.

 

O bairro, que tomava pouco a pouco uma nova feição - sem perder a sua tipicidade - tornava-se mais limpo e era o orgulho dos seus habitantes que viam, satisfeita e aumentada a sua auto-estima, passando a constituir a sala de visitas do Ibo, sendo indicado como paradigmático para outros empreendimentos a realizar noutros centros urbanos de Moçambique.

 

O PROJECTO EM IMAGENS

 

ANTES DOS TRABALHOS

 

 

                                                                                           Fig.6- Caminhos pedonais irregulares

                                                                                                 Crédito: Carlos Bento. 1969

                                                                                                     Fig.7- Lideres locais planeiam trabalhos

                                                                                                          Crédito: Carlos Bento. 1969

 

                                                                                          DURANTE OS TRABALHOS

 

                                                                                    Fig.8- Quebrando o coral com picaretas, maretas e alavancas

                                                                                                 Crédito: Carlos Bento. 1969

                                                                              Fig.9 - Mulheres transportam terra e trabalhos finais

                                                                                             Crédito: Carlos Bento, 1970

 

                                                                                              DEPOIS DOS TRABALHOS

 

                                                                                                Fig.10 - Novos arruamentos, com toponímia

                                                                                                          Crédito: Carlos Bento, 1972

                                                                                     Fig.11 - Novos arruamentos com electricidade

                                                                                                  Crédito: Carlos Bento. 1972

 

 

3 - OBRAS REALIZADAS E POR REALIZAR: UMA PERSPECTIVA ÉMIC

 

Os intervenientes e beneficiários da obra concretizada aproveitariam a presença da mais alta autoridade de Moçambique, do Governador de Distrito e das autoridades locais, para, publicamente, testemunharem a sua gratidão e a maneira como encararam a orientação e ajuda material recebidas a favor da melhoria da sua qualidade de vida e, ao mesmo tempo, expressarem alguns dos anseios que gostariam de ver satisfeitos a curto prazo.

 

Coube tal incumbência a um grupo coral (dufo), constituído por habitantes de ambos os sexos, crentes da religião islâmica, que, em kimwani, cantou os versos de um texto, também escrito em língua portuguesa, escrito pelos lideres locais[12] e responsáveis pelo planeamento e pela execução dos trabalhos:

                                                                                        Fig. 12- Grupos corais no cais do porto do Ibo

                                                                                                    Crédito: Carlos Bento, 1972

 

Referiremos, apenas, os versos que consideramos mais representativos e pertinentes para os objectivos do presente número:

 

EM KIMWANI

EM PORTUGUÊS

VII

VII

Senhor Governador epa rero catijira

Senhor Governador- Geral hoje nos visitou

Senhor Governador weto tijiwe cunssequera

Se Governador- Geral para ti vão sorrisos

Waca na walume pia tijiwe cunfuraira

Mulheres e Homens agradecidos

Na wajire nawo wonse pia walawire nawo cunjira.

Até a quem vos acompanha

XVI

XVI

n'cate ya miaka mitano ipitire Wibo ykikuawa

Nos cinco anos do passado, a ilha do IBO

na malundi

andava de gatas

Tena ina nuro na kunuinra sana ata we raide

Satisfeitos estamos até à presente data

Halauwire nida akija akusaly akaide na akija

Até a população agradece pelo novo cheiro

n'hene rero acuita cidade

Dos antigos ausentes, chegando nesta data

 

chamarão como cidade

XXVIII

XXVIII

Ofue tichukuro pakulo Governador weto

Aqui reunidos senhor Governador, agradecidos

Kutikopecha n'zuruco kuandala nanhumba yeto

estamos pelo empréstimo do dinheiro que nos tem dado para arranjo das nossas palhotas

Alhamdulilai rabil halamina tichukuro ka buana

Muito e muito obrigado, mais uma vez

ieto tizidy

agradecidos

Kua naye sana hei Governo ieto.

Que continue a sua ajuda para o nosso bem-estar.

XXIX

XXIX

Governo weto atipenda kuelikuele kua

Estimados somos pelo nosso Governo

Aquitopoecha n'zuruco quila muno viassaka

Pelo empréstimo que nos dá conforme o nosso

Tiwandala manhumba ieto

desejo, para a construção das nossas antigas palhotas que se encontravam em ruínas

Inquigua ince ilamuka, siwere kutenda

E que hoje se encontram em boa conservação.

N'zungu admnistrador weto nanga zaribika.

Sem o muito interesse do nosso administrador nenhum de nós casa teríamos.

XXX

XXX

Namuna iatipendire Governo ofue kussema atijiwa

Conforme somos estimados pelo nosso Governo não sabemos até explicar

Kapareka n'zuruko kawona, kamine Wibo

Tendo a máxima confiança pelo que ouvido

namuna yambyriwa

dos habitantes do Ibo, enviou-nos dinheiro

Yquiwa inte ya ybo piafua tikopechiwa

Todos nós fomos abonados, consertando as nossas

tiwandarira manhumba ieto mema awonia.

casas que hoje são admiradas.

XXXI

XXXI

Ofue tissema quinane wema watendire

Não temos palavras para falar da bondade e do

Senhor administrador Bento

trabalho que fez o nosso administrador Bento

Senhor Governador atissemaia n'de matoto

Senhor Governador de tudo o que estamos a

Wibo aiwere na barabara yla n'jira basse noto noto

explicar isto é pouco. A nossa Vila do Ibo nunca teve estradas a não ser caminhos apertados

Para kuenanda n'ssana na masso ufungure

Mesmo caminhando com os olhos abertos

Ucopa kukuakula m'paca wenende patoto patoto.

Tínhamos medo de nos aleijar, só caminhando devagar.

XXXII

XXXII

N'nhumba na barabara na luz pia ziwapo

Casas, estradas e electricidade já temos

Samby atijuze kurire neve pya aviquiwapo?

Não podemos chorar se tudo isto não existia?

Senhor Governador tiwonere utungw wtitimizire

Para benefício completo senhor Governador a

na ponte neio iwepo

ponte necessitamos

Tipate magibo caribo nanga senhor administrador

Que nos dê uma  breve resposta resposta antes da

Bento aripo.

saída do nosso administrador .

XXXIII

XXXIII

Senhor administrador Bento katandessa vingue

Muito fez na ilha o senhor administrador

Nhanhumba akulawa alamuka mengue

As ruínas mais antigas da zona urbana algumas

Governo aquimpa orde atendessa quino aifika

já estão reconstruídas

siko n'hingue

Recebendo ordens do nosso Governo imediamente

Nhanhumba mihã nato essire atiwalenga.

Foram cumpridas

 

E não se contado com 300 casas já concluídas.

XXXIV

XXXIV

Sikuandariwa basse  na n'hingue tijenguessa

Não só reconstruídas como as que construímos

Nhumba mihã nato nezo pya zissa

E as novas 300 palhotas já concluídas

Tasse zibakire sazinamba kuikissiwa

Não incluindo as ainda em construção,

Ezipa zissa pia nezo zankwikakarywa.

Aquelas são concluídas já habitadas.

XXXV

XXXV

Ziwapo zirykwimissywa samby na mawe

As novas que estão em construção, o material

Cujlokotywa

está a a ser aprontado

Na n'hingue zimissywa na mite na utope

E muitas de pau-a-pique estão sendo maticadas

cupatiwa

Destas referidas palhotas do nosso actual

Falá pyavy juhudi za Administrador weto noto

empréstimo, mas devido graças ao nosso

ari culaviwaiwo.

Administrador que nos deixará para sempre.

XXXVI

XXXVI

Fala quiniaruma za senhor administrador weto

A grande bondade do nosso administrador

N'de aquitafite chikuna, chiripo n'caiamueto

Sempre procurou saber o que se passa e o que

Aquititaia n'guvu yakutenda barabara pamoja

há dentro da nossa Ilha

na n'nhumba zeto

Com todo o gosto e vontade fizémos estradas e

Nacussema ka Governo tichiticuna n'caiamo

e nossas palhotas

mweto.

Comunicado sempre foi o que se passa dentro

 

da Ilha.

XXXVII

XXXVII

Uwe Governador weto patissiquire camba

A população do Ibo quando teve conhecimento

kuankuja

da sua vinda

Atikukuriwala anta maramoja

Ansiosos estávamos à sua espera

Paticala ponce kukutajataja

Onde que estejamos não deixamos de citar o seu

Nofue tikiwa nahuzune n'ulo wepo kukaua kuja.

nome

 

Pela sua demora e vinda estivémos sempre

 

preocupados.

XXXVIII

XXXVIII

Nihã na juhudy zeto pia tija cucuambira, na

Aque unidos pedimos para que falamos da

viaticare naho admistrador weto

forma como estamos com o nosso administrador

Pia wssiquira na viamandare cutenda

E de todas as ordens dadas, sempre por ele

Pia cutitendera uwe Governador-Geral

são cumpridas

Administrador na n'cauaque uwone camba

Pedimos ao Senhor G.Geral que nos deixe mais

utassira.

Tempo o nosso administrador bem como a sua

 

esposa.

XXXIX

XXXIX

 

 

Ofuepá tichanga na masso atikwanduala

Tristes estamos neste momento e com os olhos

inflamados,

Tristeza essa por não sabermos quem

Itichanguissa Wibo iweto atimona

virá continuar com os melhoramentos do nosso

Ativige aja camba akwa na wrwma nofwe sana

Ibo

Nakutionera utungwe saca cuja cussigana.

Por não sabermos de que virá terá o mesmo

 

interesse e a mesma vontade connosco

 

E de ter muita pena e interesse daquilo que está em andamento

XLI

XLI

Senhor Governador de Distrito Wibo

O nosso Governador de Distrito muito estima

apenda sana sana

o nosso Ibo

Na senhor administrador Carlos Bento

E com grande entendimento do nosso adm.

wacussiquizana

Carlos Bento

Estrada zitendiwa na luz pia zitawa

Estradas construídas e luzes eléctricas foram

Eve muanavinuvi Wibo aviquidaniziriwa.

montadas

 

Nunca o nosso Ibo teve essa esperança.

XLII

XLII

Cazi yatendyre sehor Adm. Weto atá

O grande esforço que fez o nosso Adm.

kussema atijiwa

nem sabemos explicar

Aquitenda camba preso wacwa

Trabalhou para o Ibo como se fosse um preso

kafunguia

E com a atrapalhação que ele tem

Cwa namuna yacazique walá apaná

Ninguém sabe explicar

ejiwa

A não ser Deus Nosso Senhor que está a par de

Sivijy n'lunguw muanhewe conta quila

tudo.

quino n'de ejima.

 

XLIII

XLIII

Aquitenda 'nguvo paculo iakwajudary Wibo

Fez um grande esforço e interesse para o nosso

Catiatia n'guvo pia catica wano

Ibo, tendo toda a população acompanhado tal

ya Ibo

esforço

Namuna yaquitenda kaze na macono iaque

Trabalhava com as suas próprias mãos

Kussema aibo massikyne

Se tal contarmos é uma grande vergonha

Massiquine kutowa baraca Wibo.

Na inveja de alguns o Ibo nunca tem sorte.

XLIV

XLIV

Administrador écare pakaia kustare

O senhor Administrador nunca esteve sossegado

nhumba muake

na sua residência

Ie na n'cauake kila m'moja

A população inteira sempre recorria a ele e à

aquicaziquira kuake

esposa

Juhwa na n-vula na machaca vikimuicira

Com sol, chuva e sofrimento para ele era o pão de

muire muaque

cada dia

Tango atiwene alá atissikire timona

Ele é único porque nunca vimos nem ouvimos um

noio iecaiaque.

igual.

XLV

XLV

Cuita banja na cuestudare senhor adm ei

Pelos estudos das estradas organizou uma

estrada cutendiwa ianzina sya

banja em

dois de jan. na muaca waiaziwe 1970

2 de Janeiro de 1970

Iwanwo miaca na miese sita na

Quando principiou perfazendo até esta data

suco kume nasaba.

2 anos, 6 meses e 17 dias.

XLVI

XLVI

Massiquine, massiquine administrador weto

Coitado, coitado do nosso administrador

Issaca cuudira nhuma ei Wibo yeto?

O nosso Ibo voltará a atrasar?

Cajisse viaiquissaca culanda

Já que estava em andamento como

inte zawenzeto

outras nossas terras vizinhas

Tiwonerene damby umue

Senhores Governadores tenham

na senhor Governador weto.

Compaixão de nós.

XLVII

XLVII

Na  wanaweto ku escola wakizide

Nos estudos os nossos filhos andam

kwa m'mbere

adiantados

Tilomba fadile na culebela ka kurira

Pedimos e choramos perante os senhores

senhor governador

Governadores

Mafalume wakulo wazani mwone

Como os maiores pensem e lembrem-se

mukkwmbukire

de todos nós

Kawamkussa senhor administrador

Pedimos a estadia do nosso administrador para

manhumba mengue abaquire atimarize.

a conclusão das nossas palhotas.

LVIII

LVIII

Wibo wemawaque kwassema atissa

Da beleza do Ibo não acabámos de informar

Apikire kwa miaca mine cuja sambe

Quem passou há quatro anos atrás, chegando

acua inhénhe cabissa

hoje desconhece-o

Catajudare senhor Administrador na cufurahica

Pela ajuda do nosso administrador Carlos Bento, a

Senhor Adm.Carlos Bento wema  aumuissa.

bondade que nos deu far-nos-à renascer.

LXI

LXI

Caciquine Wibo ieto ikissaka kwa viema sana

Em ritmo seguia a nossa Ilha do Ibo

Senhor Adm. Catitaira luz

O nosso Adm. montou-nos luz eléctrica

Nofué timpa mazina awakulungwa wakiwapo

E pelas estradas que ele abriu demos

baida muinti mueto wenhe nchima

nomes dos nossos antepassados

Na catitaira pia kwakila barabara

E tendo colocado nas respectivas estradas os

nhipia apita once afioma.

Nomes para serem lidos por quem passar.

LXII

LXII

Uwe Governador nculo weto wano wako

Oiça-nos senhor Governador-Geral

tissikire

Não só nos oiça como tenha

Iacutissikira basse na utungutihonere

compaixão de nós

Senhor adm. wako tukulebela utassire

Pedimos para que nos deixe com o nosso adm.

Nenza manhumba yanzire kujenga

Para nós terminarmos as obras em

noio atimarizire.

execução.

LXIII

LXIII

Umue uafalume uakulo mure mabare ieto

Vós grandes autoridades em nossa frente, desculpai-nos pelos nossos choros

Mutissuamihe chaticossa nde

Nós aqui reunidos e incultos pedimos as nossas

curira cueto

máximas desculpas

Tafadale, tafadale ofue wajinga atina dereto

Não desconhecem de que precisa chora

missintikine muno qauidiquica arira chaputo.

Para todo o mundo.

LXIV

LXIV

Tafadali aje senhor admnistrador ua

Deus queira que venha um adm. idêntico

uruma na moio muema sana

ao nosso

Aquija sana uruma Wibo aitafitiwa tena

Não vindo um igual o Ibo nunca mais se tratará

Wazungw wengue, uaja na kuona wa

Porque há muitos que por aqui passaram

quiona

, viram, conheceram e nada fizeram

Fala ehio nakuja, Wibo yanza

Mas logo com a vinda deste nosso adm.

kua sana.

O nosso Ibo começou a desenvolver.

LX

LXVI

Nhenguine zanzire sambyzire

Das novas estradas principiadas não sabemos

mapicho wawo

o seu final

Umue mafalume uakulo n'de mussaca

Vossas Exªs é que saberão informar

kuijiua kuissa kuwao basse

 

Atina kacussema

Nada mais temos a dizer

Novi indi kuissa kuwao.

Por daqui damos ponto final.

 

 

 

Para além das obras planeadas, algumas já concluídas e outras em fase de concretização, que muito contribuíram para a afirmação da sua auto-estima, a população há muito que sonhava com uma ponte que ligasse o Ibo às terras firmes, tal como se fizera na ilha de Moçambique.

 

O problema mais uma vez era colocado às mais altas autoridades de Moçambique em visita de trabalho à bicentenária vila do Ibo, sendo o pedido feito nos seguintes termos:

 

EM KIMWANI

EM PORTUGUÊS

XXII

XXII

Tikulebela pia camba via tijire muinte mueto

Pedimos mais uma vez aqui reunidos

Uano uerofi pia na uazungu weto

Em que todos, pretos e brancos

Tilebela fadile mititaire ponte

Pedimos um grande favor a V.Exª

hei Wibo eto

Que nos faça uma ponte nesta nossa ilha do Ibo

Yquipita mikukuta camba inte za

A passagem de carro que seja como nas outras

wenzeto.

terras irmãs.

XXV

XXV

Senhor Governador-Geral indinkulungua

Senhor Governador-Geral mais uma vez

wa inte

 

Tiuankulebelia fadile nofwé kaia

Pedimos que na nossa terra uma

eto ywempo ponte

ponte de travessia exista

Mutende n'guvo pia tipate

Que nos faça esse grande favor que

kaia ieto ponte

satisfeitos por toda a vida estaremos.

XXVII

XXVII

Wazungu pia mujire ua uakulo

Meus Senhores de grande honra aqui

ticikirizeni via tirina tena

reunidos, oiçam os nossos choros

Wzune n'kulo kutowwa kupata ponte

Tremendos para a nossa Ilha mais

Wibo ynte ia mida pakulo

antiga não possuir até à data uma ponte

Awa Senhor Governador tukukolane mahulo.

Senhores Governadores ouçam-nos por favor.

XLIX

XLIX

Wibo mussasse nhuma achi kissirua

Como pai e mãe não deixem atrás

wawa na mama

a ilha do Ibo

M´bana quissirua cha n´sumbije

Por que não deixam atrasada a ilha de

achassiué nhuma?

Moçambique?

Muno aquipongola assoqueriwa?

Somos nós rejeitados?

Neie n'de pajuje kupiriwa? Kulamuka

Supomos que não, como o velho Ibo está nas

ka quissiriwa sana iwepo ponte

suas razões de receber o bom trato que merece,

ilungue n´rima.

Trato esse que só com uma ponte ligando as terras firmes.

 

 

 

 

Com a saída do Ibo do autor deste trabalho, as acções ligadas à construção de arruamentos e à melhoria da habitação continuaram. Mas com o 25 de Abril de 1974 e a independência de Moçambique, o processo foi interrompido. Contudo, a frutuosa experiência ficou, podendo, a qualquer momento e lugar ser retomada.

 

Semelhante experiência apenas conhecemos em Moçambique, uma realizada na cidade de Nampula, por Alexandre Cancelas.

 

A par das acções referenciadas, outras tiveram lugar, que neste momento se lembram. Concederam-se empréstimos, com base num outro Fundo (de 25.000$00), a pescadores e a ourives, destinados à aquisição de redes de emalhar para os primeiros e moedas de prata e algum material artesanal para os segundos. Conseguiu-se, igualmente, a cedência gratuita, por parte da Fundação Gulbenkian, de algum material para os ourives. Pelo menor número, aqueles empréstimos não tiveram resultados tão palpáveis como os anteriormente referidos, mas de qualquer modo, contribuíram para a manutenção de duas actividades artesanais com certo peso na economia do Concelho do Ibo.

 

A experiência aqui relatada, embora tanta vez agradecida publicamente pela população[13], só foi possível devido ao empenhamento e à ajuda dessa mesma e tão generosa população. Ela apenas vale e serve para mostrar como sempre é possível encontrar soluções para problemas que, tanta vezes, parecem insolúveis. Umas vezes por falta de vontade política ou incapacidade das autoridades responsáveis pelo bem-estar da colectividade, outras por insuficiência de meios materiais.

 

O relativo êxito alcançado pelas acções desenvolvidas na ilha do Ibo, entre 1969 e 1972, nos domínios referenciados, ficou a dever-se à influência conjugada de vários factores:

 

1 - Haver da parte da autoridade administrativa um razoável poder de observação e de preparação em etnografia, etnologia ou antropologia; que "gostava das populações que servia"; e possuia a capacidade de respeitar e de entender, correctamente, os valores fundamentais que caracterizavam e tipificavam a vida dessas populações, pondo de parte, até onde era, humanamente, possível o seu BIAS, o seu euro-etnocentrismo;

 

2 - A natureza insular do espaço que serviu de base ao desenvolvimento levado a efeito - limitativo da mobilidade geográfica -, aliada aos sectores de economia praticados, com relevo para a pesca e serviços, que deixavam mais tempo disponível às populações que, assim, aderiam mais, facilmente, às solicitações de cooperação e inter-ajuda que lhes eram dirigidas. Grande parte dos trabalhos foram realizados aos Sábados e Domingos, dias em que a maioria da população activa estava dispensada seus afazeres profissionais. No caso da economia ser, predominantemente, ligada à agricultura as coisas já não seriam tão fáceis, dada as exigências constantes de tempo que tal actividade reclama;

 

3 - Estar-se perante uma população quase 100,00% islamizada, em que as hierarquias religiosas, ao exercerem uma autoridade e uma influência, quase, sem contestação, desempenharam papel relevante na gestão dos recursos humanos necessários em cada uma das fases dos trabalhos;

 

4- Ter havido em relação ao projecto um apoio incentivador por parte das autoridades distritais, especialmente, destas, e provinciais que, para além da ajuda financeira, face às suas características inovadoras, na Colónia, prestaram valiosa contribuição na difusão do empreendimento, tanto dentro como fora de Moçambique.

 

 

Em todos os países, mas especialmente entre aqueles em que encontramos a denominada pobreza generalizada, existe a potencialidades das populações, muitas vezes em estado latente, que é preciso despertar para as tornar manifestas. A sua ajuda efectiva e participada constituem valiosos recursos que esses países têm de aproveitar, muito sabiamente, para que possam aumentar o bem-estar e qualidade de vida dos seus cidadãos.

 

A experiência em que o autor deste modesto trabalho participou, e que, aqui, deixa um sucinto testemunho, embora modesta, mostra bem como é possível, com a vontade e cooperação de toda uma Comunidade e seus dirigentes, encontrar soluções para problemas que parecem sem respostas e para as necessidades sem satisfação[14].

ANEXOS

 

            Quadro I- A população da regedoria Muaba Bonga da ilha do Ibo, em 1971, por

            sexos e idades

Sexos

 

Masculino

Feminino

Total

Escalões de Idade F

% a)

    b)

F

% a)

    b

F

% a)

    b)

1-    Até aos 4 anos 147

46,4

9,1

170

53,6

8,9

317

100,0

9,0

2-    5 aos 9 anos 147

50,9

9,1

142

49,1

7,4

289

100,0

8,2

3-   10 aos 14 anos 128

44,1

8,0

162

55,9

8,5

290

100,0

8,2

4-   15 aos 17 anos 60

51,7

3,7

56

49,3

2,9

116

100,0

3,3

5-   18 aos 29 anos 358

45,6

22,3

427

54,4

22,3

785

100,0

22,3

6-   30 aos 44 anos 414

42,9

25,8

550

57,1

28,8

964

100,0

27,4

7-   45 aos 60 anos 190

38,8

11,8

300

61,2

15,7

490

100,0

15,7

8-   61 ou mais  anos 163

61,0

10,1

104

39,0

5,4

267

100,0

7,6

TOTAL 1607

45,7

100,0

1911

54,3

10,0

3518

100,0

100,0

VILA DO IBO 315

53,7

100,0

272

46,3

100,0

587

100,0

100,0

           

 

a- % em linha

b)- % em coluna

 

FONTE: Relatório Anual da Administração do Concelho do Ibo, de 1971 elaborado pelo autor

 

 

QUADRO II- Estado civil da população da regedoria Muaba Bonga da ilha do Ibo, em 1971, com idade superior a 14 anos, por sexos:

 

 

Sexos

 

 

Masculino

Feminino

Total

 

Estado civil F

% a)

b)

F

% a)

b)

F

% a)

b)

1-    Solteiro 465

56,0

39,2

365

44,0

25,4

830

100,0

31,7

2-    Casado 609

47,3

51,4

680

52,7

47,3

1289

100,0

49,2

3-    Viúvo 33

17,4

2,8

157

82,6

10,9

190

100,0

7,2

4-    Divorciado 78

24,9

6,6

235

75,1

16,4

313

100,0

11,9

TOTAL 1185

45,2

100,0

1437

54,8

100,0

2622

100,0

100,0

 

a)      - % em linha

b)      - % em coluna

 

FONTE: Relatório Anual da Admistração do Concelho do Ibo, de 1971 elaborado pelo autor

 

QUADRO III- População escolar da ilha do Ibo, em 1971:

 

Número de alunos            
Classes

Escola Primária

(oficial)

 

Posto Escolar

(Diocese)

  Total  
  F

% a)

b)

F

% a)

b)

F

% a)

b)

1- Pré- primária

19

(19)

26,4

10,5

53

(51)

73,6

33,8

72

(70)

100,0

21,3

2- 1ª classe

52

(42)

 

49,5

28,7

53

(52)

50,5

33,8

105

(94)

100,0

31,0

3- 2ª classe

31

(27)

 

37,8

17,1

51

(22)

62,2

32,5

82

(49)

100,0

24,3

4- 3ª classe

49

(39)

 

100,0

22,1

0

0,0

49

(39)

100,0

14,5

5- 4ª classe

30

(27)

 

100,0

16,6

0

0,0

30

(27)

100,0

14,5

TOTAL

181

(154)

 

53,6

100,0

157

(125)

46,4

100,0

338

(278)

100,0

100,0

 

 

a)      - % em linha

b)      - % em coluna

 

FONTE: Relatório Anual da Administração do Concelho do Ibo, de 1971 elaborado pelo autor

 

Quadro IV- Profissões recenseadas na ilha do Ibo, em 1971:

 

ACTIVIDADES SÓCIO-PROFISSIONAIS

F

%

01-Pescadores

167

20,4

02-Marinheiros

151

18,4

03-Calafates

12

1,5

04-Pastores

2

0,2

05-Ourives

22

2,7

06-Relojoeiros

1

0,1

07-Carpinteiros

101

12,3

08-Pedreiros

47

5,7

09-Pintores

5

0,6

10-Sapateiros

5

0,6

11-Electricistas

1

0,1

12-Maquinistas de embarcação

12

1,5

13-Latoeiros

1

0,1

14-Ferreiros

5

0,6

15-Padeiros

8

0,9

16-Barbeiros

3

0,3

17-Alfaiates

124

15,1

18-Ajudantes de carro

3

0,3

19-Cozinheiros

27

2,2

20-Mainatos

48

5,8

21-Moleques

25

3,0

22-Negociantes/vendedores ambulantes

6

0,7

23-Empregados de lojas comerciais

23

12

24-Auxiliares de escritório

1

0,1

25-Auxiliares da Administração Pública

30

3,7

TOTAL

819

100,0

 

FONTE: Relatório Anual da Administração do Concelho do Ibo, de 1971 elaborado pelo autor.

 

 

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[1]- Antropólogo e Professor Universitário

[2]- Este trabalho teve como base uma Comunicação* apresentada, em 26 de Maio de 1992, no Centro de Estudos Africanos, da Universidade Internacional, no Colóquio temático "Experiência Portuguesa em África. Encontro Multidisciplinar". *A dita Comunicação foi publicada  In Separata do Boletim da S.G.L, série 115, nºs 1-12, Jan.-Dez., de 1997, pp 1757.

[3]-Vocábulo que significa, na língua local - o Kimwani - gente da praia. A sua origem teve como base cruzamentos de persas, especialmente, chirazianos, com gente negra da costa leste de África, muita dela de condição escrava, verificados há muitos séculos.

[4]- Em 1798 a população da ilha do Ibo era de 1082 indivíduos, dos quais 255 eram livres, 68 de condição livre-adimos e 759 escravos. Estes dados constam da Relação Geral dos Habitantes das Ilhas de Querimba, relativa a 31/12/1798 (A.H.U., Documentação Avulsa de Moçambique, Caixa 82, Documento 11).

[5]-Em 1972, segundo dados que recolhemos, directamente, os pescadores do Ibo possuíam: lanchas grandes 11; lanchas pequenas (botes) 38; coches 92; casquinhas 181; gamboas 28; gaiolas 219; e redes de emalhar 61 e de arrastar 25.

[6]- A variedade alimentar, de peças de vestuário, utensílios, mobiliário e outros aspectos da vida social, pode ser verificada no Questionário por nós construído e executado no bairro em análise. Para mais informação sobre a ilha do Ibo e demais ilhas do Arquipélago das Querimbas, ver BENTO, Carlos Lopes- As Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado.-Situação Colonial, Resistências e Mudança(1742-1822). 2 vols. 1993. Tese de doutoramento publicada na Net em http://geocities.yahoo.com.br/quirimbaspemba.

[7]- Sobre esta temática consultar: ADISESHIAH, Malcolm S. - O Papel do Homem no Desenvolvimento. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1973, p.p. 422.

[8]- A primeira banja, só com regedor, capitães-mores e dignatários religiosos (xéhé e mualimo) teve lugar em 13/6/1969. Entre esta data e os meados de Julho realizámos o recenseamento que nos proporcionou contactos diários com a população; em 12/7/1969 houve uma banja com toda a população e desta data até ao fim do ano tiveram lugar banjas mensais, por povoações.

[9]- Governava então o Distrito de Cabo Delgado o Sr. Capitão de Fragata Manuel dos Santos Prado.

[10]- Era Governador-Geral o Sr. Engº Arantes e Oliveira.

[11]- Relato das actividades da Comissão dos Monumentos Nacionais, durante o ano de 1970; Monumenta Boletim da Comissão dos Monumentos Nacionais de Moçambique, nº 7, Ano VII, 1971, p. 95.

[12]- Nomeio dois deles: um João Macassar, alto dignatário da religião islâmica, felizmente ainda entre os vivos; outro Ali Ame, regedor, já falecido e através deles agradecemos a todos os outros, que foram muitos, chefes e não chefes, que contribuíram para embelezar a sua terra e aumentar a qualidade de vida de toda a população do bairro.

[13]- População que nos alcunhou de mzungo m'bara bara, ou seja,o senhor das estradas.

[14])- Aqui não colocamos a questão de saber se se tratava ou não de uma Antropologia ao serviço do Governo Colonial. Trabalho de campo idêntico ao que realizámos no Ibo, foi por nós efectuado em muitas localidades portuguesas, depois de 1975.